Le mans series
19/07/2010 - 21:00 - Updated 20/07/2010 - 18:58Opinião: "Nova data precisa-se"

Após os 1000 Km do Algarve, João Carlos Costa, comentador de Desportos Motorizados do Eurosport, opina sobre o futuro da prova da Le Mans Series em solo português.
Não posso atribuir responsabilidades aos organizadores quando os concorrentes não apareçam. Aceito, inclusive, que façam apelo aos nomes famosos para chamar público, sabendo-se que muitas vezes há imponderáveis que afastam as vedetas das corridas. Foi o que aconteceu com Nigel Mansell nos 1000 km do Algarve, fruto do acidente nas 24 Horas de Le Mans, ele que aparecia como o nome maior, cabeça de cartaz na promoção do evento, a par com Olivier Panis, Jean Alesi e, um pouco menos, Giancarlo Fisichella.
A terceira jornada do Le Mans Series 2010 realizada no Autódromo Internacional do Algarve (AIA) deixou na boca um sabor a… menu económico! Foi muito menos substancial em quantidade e qualidade que a primeira visita do campeonato à pista de Portimão, 12 meses antes. Houve poucos concorrentes, sobretudo na categoria principal, os LMP1, aquela que atraí mais espectadores. Quatro carros é “curto”, mesmo que um deles seja um Peugeot 908 HDI FAP, outro um dos Lola-Aston Martin (Signature) e os restantes os “primos” Lola-Rebellion. Sem Audi, tudo fica menos condimentado. E como a Peugeot resolveu dar uma oportunidade a Stephane Sarrazin no carro da Oreca em vez de convidar Pedro Lamy, esse facto não ajudou a que o público acorresse em maior número. Cedo se percebeu que o 908 Oreca ia dominar os debates a seu belo prazer, demasiado veloz para ser incomodado pelos Lola que apenas deram um ar da sua graça nos treinos, sendo que ficar a menos de um segundo do Peugeot foi, de facto, um enorme resultado. Na corrida, a equipa Oreca foi melhor em tudo: em andamento, em fiabilidade, em gestão da corrida, nos reabastecimentos e ainda na sempre importante massa humana por detrás do volante. As cinco voltas de vantagem foram um resultado natural, possibilitando a primeira vitória a um 908 “privado” na disciplina. O segundo lugar de Nicolas Prost e Neel Jani também foi o melhor que o carro da Rebellion conseguiu em 2010. E o mesmo se passou com o Lola-Aston Martin da Signature. Naturalmente, esses três protótipos ficaram com todos os lugares do pódio.

O espectáculo sofreu com tudo isto, tal como aconteceu na categoria LMP2, onde o HPD da Strakka saiu de cena com problemas mecânicos e o Gynetta-Zytek da equipa portuguesa dirigida por António Simões viu esfumar-se a possibilidade de repetir o triunfo do ano passado quando Miguel Pais do Amaral teve uma saída de pista e destruiu boa parte do carro pela forma intempestiva como regressou ao asfalto. Estava aberta a janela de oportunidade para o Lola HPD da RML obter o primeiro lugar (e 4º da geral), trabalho tanto mais facilitado quando também o melhor dos Pescarolo da Oak Racing se atrasou com problemas mecânicos. As desistências e a lista de inscritos magrinha fez até com que os Formula Le Mans entrassem nas contas do pódio da categoria, algo impensável no início da temporada.
Nos LMGT1 não houve história – ganhou a mais experimentada das equipas dos dois Saleen que eram a totalidade do pelotão. Mais vale acabar com a classe. O sofrimento é penoso de se ver!
Salvou-se assim os LMGT2, que funcionam como o garante do espectáculo… quando este não existe por outras paragens (leia-se classes). A AF Corse deu finalmente uma vitória ao Ferrari 430 GT em 2010 e fê-lo em grande estilo, com uma dobradinha – Melo/Bruni na frente de Alesi/Fisichella/Vilander. Mas nenhum dos espectadores que se deslocou até ao AIA e aguentou estoicamente as quase 6 horas de corrida se vai esquecer do duelo pelo 2º lugar nas últimas voltas. Um confronto enorme entre Toni Vilander e o Porsche de Marc Lieb/Richard Leitz, com este último ao volante. Para quem veio ao Algarve com vontade de emular as 24 Horas de Le Mans deste ano, foi mesmo na classe LMGT2 que encontrou paralelo. Tudo o resto foi apenas uma imagem (infelizmente) descolorida do que é a grande competição de resistência, ou até do que tem sido a Le Mans Series 2010. Culpa dos organizadores portugueses que quiseram vender gato por lebre? Sinceramente não me parece! Culpa sim da crise e, mais ainda, de uma colocação no calendário que nada abona a favor de uma lista mais recheada de equipas. Se há algo que os responsáveis do AIA precisam é de lutar para que a corrida surja no calendário antes das 24 Horas de Le Mans. Vendam o Sol primaveril em comparação com a chuva quase omnipresente nos 1000 km de Spa. Sejam criativos, batalhem com as armas disponíveis. Esta é a altura de jogar forte, com todos os trunfos, até porque as 24 Horas de Le Mans de 2011 terão muitas novidades e as equipas vão ter que as ensaiar em competição antes da grande corrida. E aí sim teríamos uns ENORMES 1000 km do Algarve. Eu faria ainda melhor: ofereceria uma corrida de 12 horas, a começar ao meio-dia e a acabar à meia-noite, que ficava tão bem na nova série mundialista que o ACO quer ver nascer no próximo ano. Que melhor ensaio para as 24 Horas, mesmo tendo em conta as diferenças da pista face ao traçado de La Sarthe, único no mundo? Ouro sobre azul, acreditem!










