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27/01/2010 - 14:26

Como tudo começou - Parte II


Os americanos quase foram impedidos de alinhar e ganharam sem cumprir o percurso. Conheça a história da primeira regata da Taça América.

O pior aconteceu quando foi hora de começar a competição. O America, alvo de todos os olhares assim que chegou a Inglaterra, deixando a maioria surpreendida e admirada com a ampla área da embarcação, acabou por ser impedido de participar na regata do Royal Yacht Squadron, o esquadrão real inglês, organizador do evento.

Os americanos não desistiram, pese embora Stevens tenha desaparecido durante uns dias. A questão passou da esfera desportiva para a política. O facto de ignorar a presença norte-americana no evento poderia ser considerada, aos olhos do resto do mundo, uma forma de escape por parte da aristocracia inglesa. Diante a pressão, o esquadrão real inglês finalmente organizou uma regata aberta a iates de todas as nações. Seria a primeira regata internacional da história.

VITÓRIA PELO CAMINHO MAIS CURTO?

O primeiro nome para a competição foi “One Hundred Guinea Cup”. A designação tinha a ver com o preço (100 guinéus) da taça em prata maciça, elaborada em 1848 pelo joalheiro Robert Garrard. A peça seria entregue como troféu ao vencedor. Em 1851, estava tudo pronto para a “100 Guinea Cup” no porto de Cowes. A escuna America iria medir forças com a frota de iates do Royal Yacht Squadron. A regata seria contra o cronómetro, tendo início a 22 de Agosto de 1851.

Na linha de partida, o América tinha que se haver com 15 iates britânicos. O percurso consistia numa volta à Ilha de Wight, contornando o farol flutuante até estibordo. Mas os americanos, alegando não terem recebido nenhuma instrução, cortaram caminho, evitando a viagem pelo farol.

Apesar dessa infracção, ocupavam apenas o terceiro lugar quando contornaram a parte oriental da ilha. Foi então que o líder da regata encalhou e o segundo classificado desviou a rota para ir em auxílio. O América assumiu a liderança, reforçando-a até à linha de meta. Sob o olhar atento da Rainha Vitória, venceu a regata com cerca de 20 minutos de vantagem, muito embora houvesse relatos de uma vitória mais expressiva.

Restava a decisão sobre o “corte” de percurso. As regras das regatas eram muito vagas e o evento tinha contornos, antes de tudo mais, de uma grande manifestação de politica internacional. Quando a Rainha Vitória se dirigiu ao America para felicitar a tripulação todos perceberam que o triunfo seria mesmo atribuído aos americanos.

DERROTA BRITÂNICA ACABOU NO PARLAMENTO

Essa vitória assumiu um significado que foi para além do capítulo desportivo. Primeiro que tudo, e em termos políticos, mostrou que os Estados Unidos eram, de facto, uma potência. Em Inglaterra, a derrota deixou a aristocracia em choque e até levou a uma declaração do Parlamento, confrontado com as críticas da imprensa: “A nação é a mais rica do mundo e organizámos a Grande Exibição para mostrar a nossa superioridade! Ao invés disso, fizemos com que nos tornássemos ridículos”. A promoção esperada com a vitória de um dos iates britânicos acabara por ser tornar no oposto. Não se tratava apenas de um produto, ou de uma desonra, era a imagem de toda a Nação que perdera força. Então não era que o continente pouco desenvolvido, para onde a Europa mandara os excluídos, tinha, de um momento para o outro, imposto a lei do mais forte?! Os “grosseiros” norte-americanos derrotaram o maior Império da época.

Quase que se pode dizer que após a vitória do America em Agosto de 1851, os americanos puderam finalmente comemorar a independência conseguida mais de 60 anos antes! Foi como que uma carta de alforria. Mostraram ao mundo que não só se tinham desvinculado da Inglaterra, como estavam avançados em termos tecnológicos.

Eurosport - João Carlos Costa
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