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30/10/2009 - 18:40

Lusos no deserto


O Masters feminino contou com a participação indirecta de dois nomes do ténis nacional que estão a ganhar fama e proveito além-fronteiras: António Van Grichen e Luís de Sousa. Conheça-os melhor.

Os portugueses deram novos mundos ao mundo aquando da saga dos descobrimentos nos séculos XIV a XVI. Depois houve a grande diáspora para França nas décadas de 60 e 70. E no ténis? Há vários portugueses emigrados para tentarem a sua sorte e que hoje em dia apresentam residência oficial no estrangeiro, sendo logicamente mais famosos os jogadores – sobretudo Michelle Larcher de Brito e Gastão Elias, radicados em Bradenton, e João Sousa, que treina em Barcelona. Mas há também os árbitros e os técnicos, sendo que o WTA Championships colocou dois deles em evidência: António Van Grichen e Luís de Sousa.

São treinadores de gerações diferentes que não se conheciam pessoalmente e que aproveitaram para forjar amizade. A convergência em Doha deu-se pelo facto de António Van Grichen ser o responsável técnico da jovem bielorrussa Victoria Azarenka, que se qualificou para jogar o Masters feminino, e de Luís de Sousa ser o director-técnico da Federação de Ténis do Qatar.

«Fiquei muito bem impressionado com o António», confessou Luís de Sousa; «sabe de ténis e é uma pessoa de cinco estrelas!». “Tovan” também apreciou o encontro: “Falámos de tudo e partilhámos as nossas experiências”.

XEIQUE

A poderosa e endinheirada Federação de Ténis do Qatar convenceu ($$$$$) o WTA Tour a organizar o Masters Feminino e ao longo do ano também organiza um torneio de destaque no circuito ATP (Roger Federer e Rafael Nadal já estão assegurados para voltar a jogar a prova no início de 2010). Luís de Sousa, prestes a completar 54 anos, está no Qatar desde 2005; como director-técnico e Head Coach, tem a seu cargo o departamento de competição e ainda é figura de bastidores desses grandes eventos internacionais realizados no imponente e recentemente remodelado Khalifa Internacional Tennis Complex – organizando, por exemplo, clínicas com jovens.

«O torneio feminino tem mais sucesso do que o masculino », confessa Luís de Sousa – revelando depois que as suas pupilas árabes têm de abandonar o ténis pelos 14 anos, idade em que têm de começar a cobrir o corpo com as burkas. Depois de ter passado pela Alemanha no início da década de 80, e de ter estado alguns meses na Arábia Saudita, no Egipto e em Inglaterra entre 2002 e 2004, afirma estar muito bem no Qatar. «Sinto-me bem, sou respeitado e consegui que os miúdos do Qatar tivessem resultados desportivos nunca antes alcançados nos Campeonatos Árabes». Também conseguiu atrair o treinador André Rosa Nunes e o preparador físico Luís Lopes para integrarem temporariamente a sua equipa técnica. E até sugeriu localmente que fosse João Lagos a organizar o Masters feminino. «O poder financeiro desta gente é enorme. Fala-se muito na riqueza oriunda do petróleo, mas eles até retiram mais proventos do gás natural», revela.

Não admira que, para além dos milionários torneios de ténis que organizam, tenham querido candidatar-se aos Jogos Olímpicos de 2016 (faziam parte de uma pré-selecção) e que queiram anfitriar o Mundial de Futebol de 2022, com orçamentos estratosféricos que envolvem a construção de luxuosos estádios com ar condicionado para refrescar as tremendas temperaturas que se fazem sentir no local…

MENTOR

Lusos no deserto - TÉNIS

Quanto a António Van Grichen, de 31 anos, está desde finais de 2003 radicado nos Estados Unidos. Começou por ficar ligado à academia de Harry Hopman, na Florida, e em Janeiro de 2004 foi escolhido como principal parceiro de treino de Jennifer Capriati, função que desempenhou menos tempo do que previa devido a nova lesão da norte-americana e ex-número um mundial. Em 2005, em vez de optar por ser também sparring-partner de Justine Hénin, “pegou” em Victoria Azarenka – jovem bielorrussa então a caminho de se sagrar campeã mundial de juniores – e é hoje o seu treinador.

Depois de, entre outras proezas, ter visto a sua protegida conquistar dois títulos do Grand Slam na variante de pares mistos (em Roland Garros, na companhia do norte-americano Bob Bryan, e no ano passado no US Open, ao lado do também bielorrusso Max Mirnyi), conduziu-a aos primeiros títulos de singulares do WTA Tour na presente temporada e, consequentemente, ao top-6 mundial e à presença na grande cimeira de final de ano na capital do Qatar.

«Em Doha somos tratados de maneira principesca. Estamos no Ritz-Carlton e tenho uma suite só para mim. O tratamento personalizado inclui uma viatura para mim – um Range Rover ou um Jaguar!», revela. «O ambiente é muito interessante; há uma comunidade muito internacional, e já encontrei vários portugueses que trabalham para a cadeia televisiva Al-Jazeera, que está sedeada em Doha e que é a host broadcaster», afirma, acrescentando: «Vêem-se muitos edifícios em construção; o local parece um resort de 10 estrelas! No torneio, há quem faça jet-ski, vá andar de jipe para o deserto ou fazer surf nas dunas». Mas acrescenta: «Por ser o torneio de elite que é, e mesmo que na geração mais nova haja boas amigas como a Victoria Azarenka, a Caroline Wozniacki e a Agnieszka Radwanska, as jogadoras não vieram socializar para o Qatar!».

 

Por Miguel Seabra,

*Comentador Eurosport e editor do Jornal do Ténis (próxima edição: 6 de Novembro).

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