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10/01/2014 - 18:14 - Updated 11/01/2014 - 10:22

Ténis em 2014: O ano do revivalismo


A época mal começou e já está a desenrolar-se sob o signo da nostalgia: vários jogadores de topo contrataram campeões do passado para os ajudarem a melhorar as respectivas carreiras. Lendl, Becker, Edberg, Ivanisevic, Bruguera e Chang prometem dar tanto que falar quanto os seus consagrados pupilos. E a vertente feminina parece seguir o mesmo caminho.

Ainda me recordo do que o tenista americano Todd Martin – que chegou a jogar duas finais de torneios do Grand Slam e uma no Estoril Open – me disse em 1999, durante o Open dos Estados Unidos: «Se nós, jogadores, realmente escutássemos o que os nossos treinadores nos dizem tudo seria mais simples». E é verdade, mas também depende muito da voz que se faz ouvir; é por isso que qualquer treinador que tenha um excelente palmarés e que também tenha passado pelas situações que o seu pupilo está a viver tem mais hipóteses de ser ouvido e respeitado do que qualquer outro.

O tema dos treinadores assumiu automaticamente protagonismo e tornou-se no assunto dominante para a época de 2014 no circuito profissional de ténis a partir do momento em que, após a bem sucedida associação entre Ivan Lendl e Andy Murray que permitiu ao escocês finalmente colmatar lacunas técnicas, psicológicas e curriculares, outros nomes grados de um passado mais ou menos recente vieram juntar-se às equipas técnicas de vários jogadores de topo. Novak Djokovic anunciou Boris Becker perante a estupefacção geral. Logo depois, Roger Federer – que entretanto tinha efectuado uma semana de treino com Stefan Edberg – decidiu convencer o seu ídolo sueco a acompanhá-lo. Entretanto, Richard Gasquet escolheu Sergi Bruguera, Marin Cilic vai ser acompanhado por Goran Ivanisevic e Kei Nishikori optou por Michael Chang. De uma assentada revivalista, temos uma mão-cheia de craques das décadas de 1980 e 1990 a desviar as atenções mediáticas de vários jogadores de topo e a centrar sobre si muita da pressão que eles sentem. O resultado promete ser fascinante, até porque nem todos podem ganhar…

Ténis em 2014: O ano do revivalismo - Ténis

O JOGO DOS ACASALAMENTOS

Sempre houve campeões de outras gerações a treinarem tenistas de gerações seguintes – é algo de absolutamente normal e é frequente ver-se isso no ténis como em qualquer outra modalidade desportiva, sendo que José Mourinho será o primeiro a confirmar que não é necessário ser-se um desportista de topo para se ser um técnico de excelência. Existem muitas variáveis a ter em consideração, desde o respeito até à comunicação. Convém recordar que o ténis português conseguiu recentemente passar para um novo patamar competitivo através de jogadores (Frederico Gil, Rui Machado, Maria João Koehler) que enquanto jovens nem sequer prometiam tanto como os seus treinadores que foram campeões nacionais da geração anterior, como João Cunha e Silva, Nuno Marques ou Bernardo Mota. Mas João Sousa bateu esses recordes na companhia de um técnico bem mais jovem e sem o mesmo currículo enquanto jogador como Frederico Marques. No cenário internacional as diferenças não são muitas, embora se saiba que um grande campeão não dá automaticamente um grande treinador – mas o caso de Ivan Lendl e Andy Murray veio desbloquear muitos dogmas e abrir novas perspectivas.

Murray sempre foi extremamente exigente e nem sempre mostrou o melhor respeito para com os seus treinadores, nomeadamente quando chegou a insultar durante jogos o ex-número quatro mundial Brad Gilbert (que também tinha treinado Andre Agassi e Andy Roddick); não só isso seria impossível de acontecer com ‘Ivan, o Terrível’, como o checo naturalizado americano (que ganhou oito torneios do Grand Slam, foi número um mundial e perdeu como o escocês as quatro primeiras finais que jogou em Majors) contribuiu significativamente para a melhoria de Murray no plano técnico (sobretudo a pancada de direita) e no plano psicológico (melhor linguagem corporal, menos atitudes negativas). Os principais rivais do escocês sentiram na pele essas melhorias em 2012 e 2013 – e seguiram a dica.

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O CASO DJOKOVIC

O caso aparentemente mais enigmático é o da parceria entre Novak Djokovic e Boris Becker, prontamente condenada e criticada por grande parte da imprensa. Na minha opinião pessoal, e mais do que o facto de Boris Becker ter um estilo de jogo e uma personalidade completamente diferentes das de Nole, não há nada nos comentários do compeoníssimo alemão para a BBC durante Wimbledon e para a Sky Sports em outros torneios que me diga que ele pode ser um excelente treinador – antes pelo contrário, a qualidade dos comentários dele é vista como bem fraca pela maioria dos jornalistas e dos jogadores. Mas Novak Djokovic, que até sabia quem Eusébio era quando veio ao Estoril Open, sempre teve uma grande admiração por ícones do passado e não há dúvida de que Boris Becker foi um grande campeão (mesmo que hoje em dia seja encarado quase como uma anedota na Alemanha); já aquando da sua passagem pelo Jamor, Nole tinha-me confessado que gostaria de juntar John McEnroe ao treinador Marian Vajda para poder melhorar o jogo de rede – e, de facto, é nesse departamento que ele tem de melhorar: os vóleis, o smash que tão mal o deixou ficar em embates cruciais com Rafael Nadal em 2013, o jogo de pés à rede, o approach e as transições. E depois há também a parte psicológica: o sérvio é forte nesse aspecto, mas deixou muito a desejar no plano mental em três embates importantíssimos em eventos do Grand Slam – a meia-final de Roland Garros e a final do US Open com Nadal e a final de Wimbledon com Murray. Basicamente, hoje em dia Novak Djokovic sabe que pode ganhar o Grand Slam.

E acredito que Novak Djokovic possa recuperar a posição de número um mundial lá para o final da primavera, eventualmente até ganhar Roland Garros em 2014. Porque, se se confirmar que a época será sobretudo dominada por Rafael Nadal e Novak Djokovic, o sérvio tem o jogo ideal para abalar o jogo do espanhol. Como é óbvio e como tenho explicado nas transmissões televisivas, não se trata de preferências pessoais; as pessoas têm é de compreender que o ténis é um jogo de encaixe – e o jogo de Djokovic incomoda Nadal, como o jogo de Nadal incomoda Federer, como o jogo de Federer incomoda(va) Djokovic. O sérvio teve o título de Roland Garros praticamente na mão quando, naquele que terá sido o encontro mais simbólico de 2013, tocou na rede após um smash vitorioso e perdeu um ponto fundamental que cimentava o seu break de avanço no quinto set perante um maiorquino que na altura parecia subjugado tecnica e tacticamente. A partir daí, a confiança esvaneceu-se e os erros crassos sucederam-se. Na final de Wimbledon, naquele que foi o momento grande da época de 2013 pelas emoções que gerou e pelo significado histórico, permitiu que Andy Murray quebrasse um jejum britãnico de 77 anos com uma exibição pouco conseguida que talvez tenha sido condicionada pelo enorme desgaste da titânica meia-final com Juan Martin del Potro. E na final do US Open, voltou a esbanjar um ponto crucial que lhe dava a vantagem de 3-0 com dois breaks no terceiro set diante de Rafael Nadal, entregando o ascendente ao adversário. Pelo menos esse novo desaire teve o condão de o abanar positivamente, porque a partir daí o sérvio regressou aos níveis de 2011 e não mais perdeu qualquer encontro até ao final do ano. E parte favorito para ganhar o Open da Austrália pela quinta vez desde 2008, embora eu não corrobore a opinião de Mats Wilander quando diz que «Novak Djokovic é o melhor jogador de hardcourts de todos os tempos». E convém não esquecer que, quando Nole contratou os serviços de Todd Martin para melhorar o seu serviço, as coisas correram muito mal. Sim, o tal Todd Martin que me disse que «se nós, jogadores, realmente escutássemos o que os nossos treinadores nos dizem tudo seria mais simples».

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O CASO FEDERER

Roger Federer está num patamar da sua carreira completamente diferente do de Novak Djokovic, que supostamente se encontra no auge. O suíço ainda é, a espaços, aquele que consegue praticar o ténis mais brilhante – mas já se sabe como é a inexorável lei da vida e sou absolutamente contra a opinião de que ele se deve retirar enquanto ainda está no top 10: Roger conquistou o direito de poder jogar até quando lhe apetecer, apenas pelo puro prazer de jogar e de competir sem olhar tanto a resultados… mesmo que as suas quebras de intensidade, alguma menor velocidade e naturais problemas de recuperação física lhe possam custar derrotas dolorosas. E acho que Stefan Edberg poderá contribuir para que tire melhor partido das suas características técnicas e atléticas, embora eu ache que uma tal associação peca por ser tardia porque já deveria ter acontecido há mais tempo e quando o suíço estava mais perto do auge das suas capacidades. A idade é fatal para os reflexos e rapidez que se exigem num jogador vocacionado para concluir sistematicamente os pontos à rede.

Para já, convém não esquecer que também o anterior técnico Paul Annacone era eminentemente um jogador de rede; mas Edberg é, nesse aspecto, um dos melhores de sempre – e até costumo dizer que os vóleis ‘fantasma’ de Edberg (aquele movimento que ele fazia à rede, preparando-se para mais um vólei imaginário mesmo vendo-se que já tinha o ponto ganho no vólei anterior) apresentavam maior convicção do que os vóleis de Federer em momentos importantes como os break-points. Também sempre me pareceu, e sempre o disse nos comentários, que quando o helvético perdia um ponto à rede parecia que tinha psicologicamente perdido dois, sendo curioso que o suíço mais tarde admitiu algo do género. É nisso que Stefan Edberg o pode ajudar: a compreender que tem de aceitar passing-shots, mas que tem de continuar a insistir nas percentagens e sobretudo melhorar muito o empenho com que executa e o modo como se desloca para os vóleis seguintes. Melhorar a esquerda em slice no approach também seria uma boa ideia. De resto, no plano do temperamento, vejo-os com personalidades muito mais próximas do que as de Djokovic e Becker… o que também pode não querer dizer nada.

NADAL E MURRAY

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O Open da Austrália ajudará a aferir se Roger Federer, que tem a defender pontos de semifinalista, ainda se conseguirá manter colado ao topo. Pelo menos referiu que treinou mais do que todos os outros na época de defeso. De resto, terá a sua melhor hipótese de um grande sucesso novamente em Wimbledon.

Quanto a Nadal e a Murray, mantêm as suas respectivas equipas técnicas. Não se sabe bem como Murray conseguirá recuperar de uma complicada intervenção cirúrgica às costas e quanto tempo demorará até regressar ao seu melhor – e essa é uma das grandes incógnitas de 2014.

Já com Nadal se sabe que ele dará sempre o seu melhor, com a consciência de que Djokovic é o seu principal rival – e o próprio Francis Roig, o seu ‘outro’ treinador, refere que a maior parte dos treinos são feitos a pensar nos problemas que o sérvio lhe põe, sendo que a solução desses problemas também tem ajudado o espanhol a tornar-se globalmente num melhor jogador ao proteger as lacunas técnicas e posicionais que o sérvio expôs durante todas aquelas finais que lhe ganhou consecutivamente entre 2011 e 2012. Sim, Nole tem o ténis e as combinações ideias para ser a kryptonite de Rafa – mas isso é uma coisa, a outra é aplicar essas combinações com sucesso e durante um encontro à melhor de cinco sets com o espanhol. Como se viu em 2013, não é nada fácil. Para já, a liderança de Nadal no ranking está segura até à primavera: só tem pontos a acumular (já ganhou Doha, pode dilatar a vantagem pontual no Open da Austrália por não ter jogado há um ano) até começar a defendê-los sobretudo a partir de Abril. E convém não esquecer que Rafa continua a melhorar em todos os aspectos – mas conseguirá ele evitar que os problemas crónicos nos joelhos lhe afectem uma vez mais a carreira?

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OS OUTROS E OS JOVENS

Fora dos chamados Big 4, há sobretudo que ter em conta Juan Martin del Potro – com um ténis possante e profundo que faz mossa a qualquer adversário. Até porque o argentino em 2013 regressou a níveis exibicionais e físicos com uma constância que não se lhe via desde 2009, quando ganhou o US Open e antes da grave lesão ao pulso. Stanislas Wawrinka, apesar de já não ser tão novo como isso, tem dado sinais de manter o elevado nível a que se alcandorou em 2013 e até ameaça melhorar, tendo acabado de vencer o título em Chennai – também ele ajudado por um ex-número dois mundial e ex-finalista de Roland Garros na pessoa de Magnus Norman. Mas será muito difícil ao veterano David Ferrer repetir as duas sensacionais épocas passadas, ele que este ano passa a ser acompanhado pelo também ex-jogador (embora mais de Challengers) José Francisco Altur: desiludiu em Doha e já perdeu em Auckland, onde defendia o troféu.

Outras associações técnicas com reminiscências do passado: para já é uma incógnita o que sairá da parceria entre Richard Gasquet e Sergi Bruguera, aparentemente tão distintos nas suas características; Goran Ivanisevic tem muitas afinidades com Marin Cilic e não é só na voz anasalada ou na mesma rua em que habitam lá em Split, já que um tenista com a estatura do jovem sérvio deveria tirar mais partido disso e ser bem mais ofensivo; nesse aspecto, também Kei Nishikori poderá beneficiar dos ensinamentos de um Michael Chang que também é baixo e era rápido como ele.

No que diz respeito aos mais jovens, estamos numa era em que é cada vez mais difícil surgirem meninos-prodígio no topo. Raro é o teenager no top 200. Mas seria bom que surgisse um para apimentar a temporada… resta saber se as eternas promessas, os jovens que já não são tão jovens como Bernard Tomic ou Grigor Dimitrov, se conseguirão aproximar do top 10 em 2014.

SENHORAS POR ÚLTIMO

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Ditam as regras da boa educação que as senhoras devem ser as primeiras, mas não há dúvida de que o tema dos campeões treinadores no plano masculino é o assunto dominante no arranque da temporada tenística de 2014. E também porque, quer se queira quer não, o ATP World Tour continua a centrar mais as atenções – se bem que o WTA proporcione às suas vedetas uma visibilidade e um pagamento inalcançável por qualquer outro desporto feminino.

De resto, também a temporada de 2014 no WTA se jogará muito no âmbito das associações técnicas e da mais-valia daí recorrente. Ficou provado até à saciedade com Serena Williams que vale a pena investir num bom treinador – e no caso dela o investimento até foi mais emocional do que monetário – porque a campeoníssima americana, apesar de ultrapassados os trinta anos, mostrou melhorar em todos os aspectos: técnica, combinação de pancadas, toque de bola, jogo defensivo, movimentação. E normalmente discutirá a hegemonia do ranking e nos torneios principais de 2014 com a fogosa Victoria Azarenka. A terceira grande protagonista poderá ser novamente Maria Sharapova, que também melhorou muito tecnicamente com Tomas Hogstedt mas que escolheu passar a ser acompanhada pelo experiente Sven Groeneveld.

Ah, e convém não esquecer que Maria Sharapova teve como treinador durante algumas semanas o lendário Jimmy Connors, para depois o despedir. E que o mesmo Jimmy Connors já tinha sido tornado redundante por Andy Roddick. Como se vê, não é fácil ser-se uma lenda do passado… mas seria sobretudo interessante que, a par dos torneios propriamente discutidos pelos seus pupilos, a nova geração de treinadores campeões jogasse também um torneio entre si. Transmitido igualmente pelo Eurosport, está claro.

Eurosport - Miguel Seabra | @MiguelSeabra

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