Snooker
06/05/2010 - 15:59 - Updated 16/06/2010 - 15:26O Meu Mundial

Miguel Sancho, comentador do Eurosport, faz o rescaldo do Mundial de Snooker que terminou dia 3, em Sheffield, com a vitória de Neil Robertson.
1 – O mundial de snooker de 2010 foi uma prova surpreendente a todos os níveis. Antes de mais, foi marcada pelas ausências dos grandes nomes na fase decisiva. Antes de começar, quem imaginaria que nas meias-finais não iriam estar presentes o Campeão e n.º 1 do Mundo, John Higgins, o sempre favorito Ronnie O’Sullivan, ou os grandes dominadores da temporada, como Ding Junhui ou Mark Williams? Isto sem falar em nomes como Shaun Murphy, Stephen Hendry, Stephen Maguire, entre tantos outros.
2 – É certo que, numa prova a eliminar directamente, sempre houve e sempre haverá surpresas. Porém, tantas e tão notórias ausências dão que pensar. Antes de mais, se os jogadores de top já perceberam que o nível cresceu exponencialmente, pelo que os jogos ditos “fáceis” já fazem parte do passado; Depois, se esses mesmos atletas se têm preparado convenientemente para este torneio, nomeadamente a nível dos treinos específicos e da preparação mental e física, aspectos fundamentais para uma prova que dura 17 dias, com partidas que se desenrolam ao longo de horas e horas de intensa pressão psicológica; Por fim, se a organização já percebeu que apostar em apenas dois ou três nomes a nível do marketing promocional não é suficiente, uma vez que o equilíbrio entre os 16 jogadores de top é enorme…
3 – É muito importante que tenha sido um não britânico a ganhar a prova. Pela segunda vez na história, depois do canadiano Cliff Thorburn, no já longínquo ano de 1980, um jogador de fora da esfera do Reino Unido e da Irlanda vence este torneio. É importante não só pelo renascimento da modalidade na Austrália e em toda a Oceânia, assim como pela imagem que dá ao mundo que qualquer um, desde que tenha empenho, dedicação e habilidade, pode ser um dia Campeão do Mundo, independentemente do país onde nasça. Se houvesse necessidade, esta é a prova mais substancial que o snooker tende a ser, tal como o pool e a carambola, uma modalidade à escala mundial. A vitória de Neil Robertson, que há muito vinha prometendo uma conquista desta magnitude, mais não é que a extensão da evolução dos jogadores chineses, quanto a mim os futuros dominadores do snooker no prazo de uma década.
4 – Tão importante como a vitória de Robertson, só mesmo a presença de Graeme Dott na final. Depois de todos os problemas pessoais por que passou, que quase o fizeram abandonar este desporto, o regresso aos grandes palcos do escocês, Campeão do Mundo em 2006, é um sinal evidente que quando o homem quer, tudo consegue. No snooker como na vida!

5 – O momento mais marcante da prova foi sem dúvida a vitória de “Sir” Steve Davis sobre o campeão em título John Higgins. Aos 52 anos, o pai do snooker moderno mostrou ao mundo que a idade não é impeditivo suficiente quando se quer atingir uma meta. Na sua 30.ª participação em mundiais, brindou as novas gerações com um pouco do grande campeão que foi nos anos 80. Para mim, que aprendi a ver e a gostar de snooker com este “Senhor”, foi uma alegria imensa imaginar os muitos milhões de jovens que puderam, pela primeira vez ao vivo, ver um Steve Davis em grande forma.
6 – A mancha deste mundial acabou por ser John Higgins. Não só pelo que (não) jogou, mas sobretudo pelo escândalo das apostas ilegais que o envolve e que, infelizmente, vai grassando na modalidade. Espero que se apure a verdade dos factos e, embora me custe a acreditar que um homem que tem milhões se possa vender por “míseros” 300 mil euros, também não deixa de me impressionar a facilidade com que os atletas dos mais variados desportos têm sido atraídos para este verdadeiro inferno dos jogos viciados. Para bem do snooker, e do desporto em geral, é fundamental que os prevaricadores sejam seriamente castigados. Só assim o desporto poderá ser atractivo para quem vê e, seguramente, para quem nele investe.
Miguel Sancho









