Rally raid
11/12/2009 - 13:58Cuidar do físico

Os 9 mil quilómetros através da Argentina e do Chile, muitas vezes a alta altitude e com temperaturas elevadas, obrigam a um enorme esforço físico, tornando o “Dakar” uma das mais exigentes competições do planeta. Vamos saber como se preparam os pilotos.
O “Dakar” é uma maratona com exigências fora do comum em termos físicos. Por isso mesmo, os pilotos têm de estar bem preparados para enfrentarem todas as dificuldades. Para alguns treinar o físico é uma maneira de estar na vida; para outros tudo… menos um prazer! Uma coisa é certa – a preparação física não se consegue de um dia para o outro. É um trabalho prolongado no tempo. “ Mas antes do ‘Dakar’ temos de intensificar o treino para chegarmos à prova em forma, diz Carlos Sainz, um dos homens da armada VW.
CALOR E ALTITUDE OBRIGAM A CUIDADOS ESPECIAIS
Com a passagem de África para a América do Sul, a prova tornou-se ainda mais exigente em termos físicos. Estamos no Verão do hemisfério Sul e as temperaturas sobem até valores muito elevados, sobretudo a meio do dia, em pleno Deserto do Atacama, uma das regiões mais secas do mundo.

Lucas Cruz, navegador de Carlos Sainz, explica os tipos de treino: “boa parte da preparação física específica é para nos adaptarmos ao calor. Fizemos testes em Mahmid, no sul de Marrocos, onde se registam temperaturas exteriores de 47 graus… e mais elevadas ainda dentro do habitáculo do Race Touareg. Assim, podemos ver qual a reacção do nosso corpo à exposição a elevadas temperaturas”, refere o espanhol.
Uma boa hidratação é fundamental durante o rali. O preparador físico da VW tem trabalhado muito nesse particular, sobretudo com o mais recente recruta da equipa - Nasser Al Attiyah não escapa a corridas diárias de 45 minutos.
“É algo de absolutamente necessário”, diz o piloto qatari, continuando: “mesmo com o calor, se não seguirmos este ritmo de treino, então o melhor é nem irmos à prova. Tenho mesmo de fazer os 12 km diários, mesmo quando estou em casa. Também é verdade que estou muito habituado ao calor. Mas como suo pouco, tenho mesmo de correr para tentar suar mais e limpar toxinas!”.
Giniel de Villiers também sabe que tem de se aplicar no treino físico se quiser repetir o triunfo obtido na última edição.
“Treinámos com muito afinco antes da prova do ano passado e ainda bem que o fizemos, pois em algumas zonas as temperaturas era elevadíssimas. Com essa preparação, também não tivemos qualquer problema em altitude, onde o ar é mais rarefeito. É por isso que este ano estamos a repetir exactamente o mesmo esquema de treino”, assume o sul-africano.
Para o treino em altitude a equipa VW deslocou-se a Arosa, na Suíça, tal como já tinha feito em 2008. A ideia era perceber como reage o corpo ao esforço continuado em zonas com ar menos oxigenado. Mas os “campos de treino” são também uma boa ocasião para se desenvolverem as relações entre os membros dos team de fábrica. A BMW foi outra das marcas que apostou nesses “refúgios” para consolidar o espírito de equipa.
“Fizemos sessões de treino simulando a altitude. No entanto, ainda que muito positivo, este treino por si só não é suficiente. Por isso, temos de praticar desporto regularmente para chegarmos bem fisicamente a uma prova dura como o Dakar”, refere Stéphane Peterhansel.
Nani Roma, outro piloto da marca bávara, é viciado em Desporto. A prática desportiva é um modo de vida para o catalão, que aposta nas actividades que requerem endurance extrema.
“ Adoro praticar desporto durante todo o ano. A partir de Agosto trabalho especificamente em função do Dakar. Tempo fazer o máximo de desporto fora de portas, sobretudo andar de bicicleta e actividades na montanha. A ideia é vitalizar as partes do físico que mais sofrem dentro do carro. São fundamentais longas horas andar de bicicleta, ou fazer esforços continuados, pois assim estamos a trabalhar a endurance, elemento crucial no Dakar. Estar em forma é importante para qualquer prática desportiva e eu adoro trabalhar nesse capítulo. É algo de perfeitamente natural na minha vida”, diz Roma.
GUIAR AINDA É O MELHOR TREINO!

Nani Roma, como a maioria dos pilotos, não fez muitas provas de Todo Terreno ao longo da temporada. E todos sabem que a melhor preparação... ainda é guiar em competição! Assim sendo, o espanhol da BMW resolveu disputar algumas provas do campeonato espanhol de ralis de terra (e também no Regional da Catalunha) com um Citroen C2 S1600.
“Toda a competição que requeira concentração é importante. Simular a condução é difícil. Por isso, estou sempre a tentar fazer provas que melhorem a minha capacidade de pilotagem”, sublinha Roma.
O espanhol continua a manter ligações fortes ao mundo das duas rodas, ele que foi o primeiro piloto do seu país a ganhar o “Dakar” em moto. Passa muito tempo com o amigo Marc Coma e com outros pilotos catalães de topo, como Jordi Viladons, Gerras Farres e Jordi Duran. É muito comum vê-los fazer zonas de trial com as motos.
“O trial é muito divertido. Um momento de enorme liberdade. Posso praticá-lo a um quilómetro de minha casa. Possibilita um óptimo treino técnico – colocar a moto no sítio certo, controlar o acelerador. E se fizermos estas actividades na companhia de amigos, o prazer é ainda maior. Bom treino e boa convivência”, diz Marc Coma, o vencedor do “Dakar 2009” em duas rodas, continuando: “nós somos dos poucos que treinamos sempre juntos e isso ajuda a que tenhamos uma relação muito forte. Acreditem que faz a diferença nas fases mais duras do ‘Dakar’”.
E o que não faltam são constrangimentos físicos, mas também mecânicos, durante o “Dakar” sul-americano. “Fisicamente, sofri demasiado na prova do ano passado. Por isso, trabalhei ainda mais para estar em forma”, refere Coma.
Na luta pela vitória, o espanhol volta a ter Cyril Despres como principal adversário. O francês, que escolheu o nosso Ruben Faria para “aguadeiro”, não se tem poupado a esforços. Há meses que vem apostando em reforçar a endurance física. Com a aproximação do início da prova, o trabalho é cada vez mais intenso.

“Não sou grande fã de treinar com a moto. Para além disso, o Miguel, o meu preparador físico, vem de outras disciplinas desportivas. Digo-vos, ele não percebe nada de afinação de um moto, mas é um perito em por alguém em forma física! E se não pilotar muito, quando chega a prova, estou ainda com mais ‘fome’ de sentar-me na moto”, explica o francês.
No ginásio, Despres trabalha todos os músculos e não apenas aqueles que são mais requisitados para se pilotar uma 2 rodas de competição: “esta preparação de todos os músculos faz a diferença no caso de uma queda ou de uma chegada ao solo mais violenta depois de um salto. O corpo aceita com mais facilidade esse tipo de ‘pancadas’!”, explica.
As várias quedas que sofreu ao longo da carreira deixaram marcas no corpo do gaulês, mas também o ajudaram a descobrir como trabalhar o físico na água. A piscina é um bom auxiliar na preparação, ainda que requeira cuidados especiais: “quase que diria que é mais refrescante do que propriamente um treino! Nunca nado mais que dois mil metros. Fisicamente é muito bom. O problema é que para aguentarmos o guiador durante todo o dia, mesmo com luvas, temos de ter uma pele das mãos muito resistente. E a água produz exactamente o efeito contrário. Por isso, tendo não ficar muito tempo na piscina”, sublinha Despres.
TREINAR A MENTE
Para além do físico, os pilotos treinam também o capítulo psicológico.
“Se nos perdemos no deserto, o melhor é termos nervos de aço! Esse treino é importante. Mentalmente ficamos mais fortes. Temos de ser capazes de tomar decisões certas não apenas durante 1 ou 2 horas, mas durante 5 ou 6. Por exemplo, uma boa maneira de estar bem psicologicamente é passar muito tempo rodeado de atletas profissionais, pessoas que têm objectivos comuns”, diz Mark Miller, o americano da VW.
Há quem recorra de forma continuada no tempo a um psicólogo.
“Existe um pouco o tabu em admitir que consultamos um especialista. Talvez porque as pessoas podem pensar que temos outro tipo de problemas mentais! A verdade é que são cada vez mais os atletas de alta competição que trabalham com psicólogos... ainda que muitas vezes não o digam. Eu tenho o mesmo psicólogo que o Marc Coma. Ajuda-me, por exemplo, a ser capaz de manter a concentração por períodos mais longos. Mas digo-vos, o melhor treino para a mente ainda é seguir o meu preparador físico, o Luis. Após 5 horas estou ‘morto’! Descobrir forças para acabar o percurso é uma grande preparação mental”, explica Nani Roma.










