Rally raid
01/12/2009 - 13:46Preparar… para ganhar

Vencer o “Dakar” é impossível sem cuidados extremos na preparação das máquinas. Venha conhecer as novidades técnicas introduzidas nos carros e nas motos para a edição 2010.
A vitória no “Dakar” está sempre directamente relacionada com a fiabilidade. Seja nas motos ou nos carros (sem esquecer os camiões), é impossível ter uma palavra a dizer na luta pelo triunfo sem se ter feito correctamente os “trabalhos de casa”. Claro que a inspiração do piloto também pode ter (e tem!) influência determinante, mas há que prever todos os problemas mecânicos, por mais ínfimos que sejam.
JOGAR COM AS RESTRIÇÕES
Para a edição 2010 a grande novidade nas duas rodas é a introdução de restritores nas motos de cilindrada acima dos 450cc utilizadas pelos pilotos Elite. Um factor que teve consequências na forma como as mesmas são preparadas. A KTM tentou minimizar o handicap de potência originado pelas novas regras. Deixemos as explicações para o “aguadeiro” de Marc Coma, o também espanhol Jordi Viladoms: “este ano vai ser um pouco complicado para nós devido a este novo regulamento que obriga ao uso de restritores. Mas estamos a trabalhar no duro para encontrar uma solução e sermos tão competitivos como sempre fomos”.
A KTM preferiu não estar presente a nível oficial no “Dakar 2010”. No entanto, poderá muito bem obter a nona vitória consecutiva e não se tem poupado a esforços para apoiar os seus principais pilotos, como Cyril Despres.
“A KTM tem um departamento de competição só para as provas de TT. São pessoas apaixonadas e mesmo se não estarão no terreno connosco, não se pouparam a esforços para encontrar uma solução a tempo”, diz o francês.
O conhecimento do “Dakar” sul-americano acaba por facilitar a tarefa de preparação das KTM 690. Desta feita, já todos sabem o que esperar, como explica o vencedor da última edição, Marc Coma: “com a experiência do ano passado temos agora uma ideia mais precisa do tipo de terreno que iremos encontrar. Assim sendo, podemos escolher melhor o material que precisamos.Digamos que nos dá maior tranquilidade”, explica o espanhol.
“MOUSSE” AINDA É PROBLEMA NAS MOTOS

No ano passado, o maior problema dos homens da frente nas motos teve a ver com pneus. O desgaste era enorme e o aquecimento levava a que a “mousse” interior anti-furo rebentasse. Todos os pilotos que lutavam pela vitória passaram por dificuldades a esse nível. Cyril Despres foi um dos que ficou rapidamente arredado da vitória devido aos pneus.
“Agora já sabemos o que não funcionou na mousse anti-furo - o facto de fazermos muitos quilómetros a fundo neste tipo de terreno. No entanto, este ano não teremos essas pistas super-rápidas da zona sul da Argentina que foram usadas nos três primeiros dias na edição anterior. Vamos directamente para o deserto e essa acaba por ser a melhor solução para os problemas com a mousse anti-furo. Para além disso, com a experiência acumulada apercebermo-nos mais cedo se tivermos um problema. Ou seja, de cada vez que formos a fundo numa recta durante mais de 20 minutos, automaticamente vamos começar a pensar o que pode acontecer de menos bom aos pneus, refere o duplo vencedor do Dakar, o homem dos anos pares… como 2010!
A verdade é que mesmo com um ano de experiência, a mousse anti-furo da Pirelli continua a não ser totalmente eficiente. No Rali da Tunísia, em Abril, e em Marrocos, já em Outubro, Marc Coma voltou a ter problemas a esse nível.
“É verdade que a última prova em Marrocos mostrou que vamos continuar a sofrer. Trabalhou-se bastante para resolver essa situação, mas infelizmente hoje em dia ainda não temos a panaceia para o problema. Por isso, haverá algumas etapas onde talvez seja melhor usarmos câmaras-de-ar, em vez da mousse. Logo veremos”, admite Coma.
Já os pilotos das motos de 450cc confrontam-se com outro tipo de problemas. A Aprilia, que estará presente a nível oficial, mostrou no Rali do Faraós, em Outubro, que a sua nova moto é muito performante, tendo Francisco “Chaleco” Lopez ganho a primeira etapa. Só que depois o chileno foi vítima de problemas eléctricos. E no Dakar, a fiabilidade ao longo dos 9 mil quilómetros de prova é um factor decisivo. Vamos ver se até à partida em Buenos Aires, a marca italiana resolve todas as questões e assim poder dar luta à KTM e Yamaha, no papel as principais favoritas nas duas rodas.
EM CARRO GANHADOR… MEXE-SE POUCO!
Nos carros, as equipas oficiais também não se pouparam a esforços. A VW, que quer manter o ceptro, fez vários testes em Marrocos em Agosto, depois de ter ganho o Rali dos Sertões no Brasil. E logo de seguida, em Setembro, foi até à Ásia Ocidental vencer o Rali Rota da Seda. O Race Touareg parece estar pronto para a batalha.

Na edição 2009 do Dakar, os VW mostraram performance e fiabilidade, a receita para se vencer a prova. Mesmo assim, a marca germânica continuou a trabalhar no duro para desenvolver o carro e ser cada vez mais eficaz em termos de logística. O engenheiro e mecânico que constroem o Touareg em Hanover, onde está situado o departamento de competição da VW, seguem depois o carro durante a prova. A montagem completa demora entre sete e oito semanas.
“Referenciamos todos os pequenos problemas encontrados em 2009 e tentámos resolvê-los um a um. Claro que todos sabem que na última edição tivemos muito sucesso e encontramos poucos problemas. O objectivo é não ter nenhum. Melhoramos também o motor, sobretudo ao nível da refrigeração, para além de alguns detalhes de aerodinâmica”, explica Andreas Lautner, o director técnico da VW.
Para se sobreviver a um rali tão longo e duro, há que testar todos os componentes. Os testes em areia mole em Marrocos e a estradas de terra compacta da “Rota da Seda” foram determinantes para os homens da marca alemã perceberem se tudo funcionava tal como esperavam. Mas em Hanover também se encontraram soluções para alguns eventuais problemas. As pequenas alterações feitas no motor TDI passaram pela validação do banco de ensaios.
“Alterámos alguns detalhes no diesel, pois nestas condições, sobretudo a alta altitude, o motor estava muito perto do limite. No entanto, as modificações foram apenas de pormenor, já quem em 2009 tínhamos introduzido modificações mais profundas. E fizemos um teste de banco de ensaio em que realizámos uma quilometragem superior à que terá a prova para assim estarmos seguros da fiabilidade do TDI”, refere Lautner.
As alterações no Touareg foram mínimas. E a equipa apenas introduziu peças novas 100 por cento testadas. É que experimentar novidades é um perigo numa prova com o “Dakar”.
TUDO PELA FIABILIDADE
Outro ponto importante na prova rainha do Todo Terreno é a forma como os pilotos têm de adaptar a afinação dos carros aos variados terrenos de cada uma das etapas. Talvez por isso, a BMW tenha optado por pilotos experientes para reforçar a sua formação dos X3 da X-Raid. Stephane Peterhansel e Nani Roma são os novos recrutas e com eles vieram alguns engenheiros e mecânicos que também deixaram a Mitsubishi. Em conjunto, trabalharam para dar mais fiabilidade ao BMW.
“A última vez que tinham feito grandes desenvolvimentos no X3 tinha sido com a ajuda do malogrado Colin McRae. A partir daí alteraram apenas pormenores. Desta feita, trabalhámos muito ao nível da suspensão, transmissão e diferencial”, explica Peterhansel, continuando: “na minha opinião, os maiores problemas do X3 a nível de fiabilidade não têm a ver com uma peça importante, como o motor ou a caixa de velocidade. São antes pequenos detalhes e por isso pedi que tivessem uma grande atenção a esse nível”.

Nas duas do deserto do Atacama, com areia muito macia, a potência e ainda mais o binário do motor, podem ser um factor crucial. Nesse aspecto a BMW está bem municiada. Depois de um ano de experiência com o diesel da Mitsubishi, que não era particularmente eficaz, Peterhansel anda maravilhado com o seis cilindros feito em Munique: “é um motor impressionante, pelo nível de performance que se consegue em todos os tipos de terreno. Não precisei de adaptar o meu estilo de condução, mas pela primeira vez tenho potência de sobra nas zonas mais técnicas. Antes, com o Mitsubishi, era sempre a fundo e ficava à espera de ver o que acontecia. Agora não: tenho de controlar o acelerador, e isso é algo de novo para mim”, refere o piloto com mais triunfos no Dakar.
A BMW fez entre quarto e cinco mil quilómetros de testes em Marrocos, para além de estado presente em várias provas - Tunísia, Transibérico, Espanha, Shamrock. Oportunidade para Guerlain Chicherit, mas sobretudo Peterhansel e Roma se adaptarem ao X3. O patrão, Sven Quandt, está satisfeito com a escolha de pilotos: “cada um tem o seu estilo de condução… e o de Nani e do Stephane adapta-se muito bem ao carro. Não estão sempre ao ataque. Preferem poupar a mecânica. Analisando a telemetria descobrimos, com a ajuda de vários parâmetros, que não abusam da mecânica, mesmo nas zonas onde têm de andar mais rápido. Esperamos que a sua contribuição nos ajude no próximo Dakar”.
O problema para os BMW tem sido a fiabilidade. A equipa tentou melhorar todos os aspectos do X3 - por exemplo, os travões que deram muitas dores de cabeça.
“É um facto que tivemos alguns problemas a esse nível na Baja Espanha, mas depois trabalhámos para os resolver. Nas duas grandes sessões de testes que realizámos em Marrocos já não os encontrámos. Entretanto, construíram um novo carro para mim e tenho total confiança na equipa e nos mecânicos. Até aqui estou muito satisfeito”, sublinha Peterhansel.
Tudo pronto então para o grande confronto entre VW e BMW pela vitória no “Dakar 2010”, em duelo que Robby Gordon quer “arbitrar” com o fantástico Hummer.










