Jogos olímpicos
29/01/2010 - 20:09Apetece ficar em Vancouver

Passo a passo, João Carlos Costa leva-o numa viagem detalhada pelos principais pontos turísticos da principal cidade da Columbia Britânica, que entre 12 e 28 de Fevereiro vai ser o epicentro da
Visitei-a duas vezes, sempre por causa das corridas do então campeonato CART. O problema foi deixá-la. Quanto mais se conhece, mais apetece ficar em Vancouver, a próxima cidade a entrar no mapa Olímpico.
Quando a vi do ar, a topografia fez-me lembrar a Manhattan nova-iorquina: uma península, a de Burrard, mais ou menos rectangular, recheada de prédios, muitos deles querendo tocar o céu, tendo como pano de fundo (ou porta de entrada) um braço de mar oceânico. Uma analogia que se pode fazer ainda pela densidade populacional, a segunda maior da América do Norte, a seguir… a Nova Iorque (3 milhões de pessoas em 113 km2)!
Ao “descer” à terra, percebi que, afinal, havia substanciais diferenças. E essas não se ficavam pelo facto de estar nas margens do Pacífico, e não do Atlântico, e de ao fim do dia o sol se esconder no mar, como me habituei em Lisboa!

A loucura da “Big Apple” é substituída em Vancouver por uma calma pouco habitual numa grande metrópole. Claro que vi milhares de carros, uma (quase) anormal mestiçagem da população, como se num espaço limitado descobrisse todas as raças do Homem, e “milhentos” chamarizes comerciais, típicos de sociedade de consumo. Só que a capital da província canadiana de Columbia Britânica, “entalada” entre o azul mar e o verde (ou branco) das Montanhas Rochosas, tem um buliço próprio. Mostra-se majestosa mas intimista, sofisticada e ao mesmo tempo descontraída, agitada e próspera.
Permanecer em Nova Iorque mais do que três dias deixa-me sempre com vontade de arrancar os cabelos... ou de fugir, seja para os Hamptons, em Long Island, seja para a Bear Mountain, os Catskils ou as Pocono, transpondo o Rio Hudson a caminho de... paz e sossego! Vancouver não. Cativou-me, fez-me apetecer “ficar”, apesar do que a rodeia ser tão ou mais belo que os arredores daquela que consideram ser a capital do mundo. Nenhuma grande cidade do planeta tem praia, campo, floresta e montanha com neve no espaço de uma hora de viagem! A que mais se aproxima talvez seja Barcelona.
MAGIA ENTRE MAR E MONTANHA
Comecei o passeio exactamente pelas redondezas. Numa circunferência com de 130 km de diâmetro, Vancouver pode oferece as montanhas carregadas de neve para uma descida de esqui ou de trenó no Inverno (para mais nos agora palcos Olímpicos de Whistler/Blackcomb ou Cypress Mountain). No Verão, quando lá estive, essas zonas trocam de “fatiota”. Das águas do degelo resultam lagos para nadar ou andar de barco a remos ou à vela, e as pistas de esqui transformam-se em paraísos para uma caminhada ou passeio de BTT. Até os meios mecânicos continuam a funcionar com aparelhagem própria para transportar bicicletas. Tudo isto com prazeres suplementares: está muito menos frio e nos dias mais longos do ano há luz até muito para lá das 22h00.
Uma e outra estância “deixam-se” visitar de carro ou, melhor ainda no caso de Whistler, de comboio panorâmico. Por 80 Euros (com pequeno-almoço ou lanche incluídos) mostra a natureza em todo o seu esplendor ao longo de três horas de conquista, carril acima.
ILHA IMPERDÍVEL

As imediações da terceira maior cidade do Canadá abrem-se-me ainda para a enorme Ilha de Vancouver, a 40 minutos de barco. Local de sonho! O Pacific Rim National Park é obrigatório. Um mundo de florestas de clima temperado, onde o verde ganha sempre, e as praias, muitas delas de areia cor de ouro, chama-me para um banho na água mais quente (mesmo assim 18 graus é o máximo) da região mais a norte do Pacífico, desígnio de marés e correntes. Se é amante de surf, está em casa. E se gosta de modos alternativos de estar na vida há a Praia de Wreck, possivelmente a mais famosa para os nudistas da América do Norte. No meio de tudo isto, surgem resorts de se ficar roidinho de inveja, caso a bolsa nos proíba de transpor o portão.
Para completar o “bouquet” desse paraíso dissimulado de ilha, descubro a cidade de Victoria, com imensa história e capaz, como poucas, de a respeitar, preservando-a. Dizem-me que muitos artistas de cinema tem casa por ali, bem como as famílias do “dinheiro antigo”. Como os percebo. E volto a lembrar-me de Nova Iorque e dos seus Hamptons, onde os “cifrões” de todas as épocas também “casam”.
UMA CIDADE (QUASE) NOVA…
Falando de história, descobri posteriormente à primeira visita que Vancouver é relativamente nova – cerca de 150 anos. O primeiro assentamento de colonos europeus é reportado como sendo de 1862 e com uma serralharia (normal havendo tantas árvores!...). Foi-lhe dado o nome do capitão holandês Georges Vancouver que em 1791 aportou na zona da ilha. O registo oficial como cidade data de 6 de Abril de 1886, exactamente no ano da inauguração da Canadian Pacific Railway e da chegada do primeiro comboio transcontinental àquela que ainda hoje marca o terminus (ou o início) de uma das mais grandiosas viagem de “Cavalo de Ferro” do planeta.
…E A MELHOR DO MUNDO PARA SE VIVER
E quem não gostaria de viver na melhor cidade do mundo? Com quase três milhões de habitantes - dos quais 2,2 milhões em subúrbios - Vancouver foi eleita em 2008 e 2009 pelo Economist Intelligence Unit (EIU), empresa de sondagens da revista americana “Economist”, como a grande metrópole quem tem melhor qualidade de vida. Requisitos como baixas taxas de criminalidade, apesar de a crise dos últimos 18 meses ter feito diferença pela negativa, sobretudo com mais sem-abrigo, e a vasta oferta de actividades culturais e desportivas, para além da beleza natural e a forma como esta está preservada, foram os factores mais votados.
Étudo isso que me explica, agora por e-mail, o meu amigo John, natural de Vancouver, camarada de escrita em muitas corridas de automóveis por esse mundo fora. Já tinha sido a ele que recorrera para me servir de cicerone na primeira vez que visitei a cidade, em 1999.
NO CORAÇÃO DA METRÓPOLE… E PARA ALÉM DELE
Começamos por West Vancouver, local de residência dos ricos e famosos. Parece um cenário de filme de famílias classe A+. Parece… e é! Vancouver tem sido das cidades mais usadas em séries e filmes “hollywoodescos”.
Seguimos em direcção a Downtown, que se vai espalhando pela beira de água. Passamos pelo Stanley Park, a principal zona verde, impecavelmente tratada e com uma fantástica colecção de totens. O parque existe desde 1888 e o seu posicionamento frente à baía só lhe dá grandeza acrescida. Aí temos o “calçadão” de Vancouver, ideal para uma andar a pé ou de bicicleta. Quilómetros de passeio público que começa no Canada Place e acaba na praia de Kits, a mais central, mas também mais usada da cidade.
O centro é igual a tantos outros em arquitectura. Não me encanta como Chicago mas tem mais vida, até porque ao invés de outros grandes burgos, as novas torres são mais de habitação do que de escritórios.

Há vinte anos o antigo porto transformado em zona comercial e de lazer marcava a diferença. Deu o mote para metamorfoses idênticas em muitas cidades onde o mar também lhes beija os pés. Hoje em dia já não surpreende, mas ainda apetece ter aí um apartamento com vista. E à noite é o sítio mais “in” para uma refeição, uma bebida ou uma compra tardia.
Na moda está também o bairro Kitsilano, que inclui ainda a zona de Point Grey. Ganha em panorâmica e é onde vivem os jovens com profissão liberal que estão a ter sucesso. Vejo-os passar nos seus cabriolet, a caminho das praias da zona - Jericho, Spanish Banks e Locarno. Substituiu no coração dos mais endinheirados a zona de Vancouver South, com os bairros mais tradicionais de Kerrisdale, Dunbar, Oakridge e Marpole.
A classe trabalhadora vive nos subúrbios, como Burnaby, New Westminster, Richmond, o mais recente Coquitlam, ou em Surrey, o maior de todos eles e onde o SkyTrain (metro elevado e melhor meio de transporte local) também chega. Há quem prefira algo mais central, como East Van. E é para ai que vou de seguida, levado pelo “guia desencartado” a quem pergunto qual é o interesse de visitar mais um dormitório? Não é um, são dois, responde: a Commercial Drive, a zona mais boémia da cidade, e a Main Street, “terra” de artistas de todas as artes.
Ao final do dia fomos a Chinatown, onde vive a segunda maior comunidade chinesa da América do Norte. Esqueçam. Depois das cinco da tarde, mais vale ir a outro sítio. Sem dúvida, a zona mais feia da cidade.
POR ENTRE URSOS, VISTAS E PRECIPÍCIOS
Depois do trabalho do fim-de-semana, aproveitei o último dia para andar sozinho. A escolha foi Grouse Mountain, um enorme parque que até tem uma estação de esqui, praticamente na cidade (15 minutos de viagem). Era Verão e não havia neve. Fiquei pela viagem de teleférico e o apreciar da vista, a melhor de Vancouver. Não passei das zonas limítrofes do parque. “Desconvidei-me” depois de ler uma placa "cuidado com os ursos" com a seguinte recomendação: “não corra, abaixe-se protegendo o pescoço, pois eles atacam a jugular. Fique quieto”. Mais fácil de ler… do que executar! Limitei a observar os simpáticos animais que vem conviver com os turistas junto a um cercado.

Se o gosto pela aventura ainda não estiver saciado há mais dentro dos limites da cidade: a Capilano Suspension Bridge, a primeira ponte construída na América do Norte. Não a cruzei, mas fiquei a ver os turistas a passar na estreia faixa de madeira… que “mexe e remexe”, como diz a canção, só que o solo está 70 metros… lá em baixo!
Já que estamos a falar de sacia, não sendo São Paulo (que ganha sempre a palma de melhor “cidade-restaurante” do mundo), Vancouver é também top em gastronomia. Nos mais de cinco mil restaurantes espalhados pela cidade vai encontrar satisfação para o seu palato e a sua bolsa: da comida chinesa, japonesa ou vietnamita, até a algo mais ocidental, do italiano à nouvellecuisine, nada falta. E experimente o vinho da região. O tinto surpreendeu-me…
Um conselho como nota final. Não vá de avião, até porque a alfândega dos aeroportos canadianos é um martírio. Se tiver tempo, chegue de carro, como fiz na segunda visita. Aumente o prazer iniciando o trajecto na zona norte da Califórnia, cruzando ainda os estados americanos do Oregon e de Washington. Vancouver fica logo a seguir a se passar a fronteira. Não use as Interstate (auto-estradas). Utilize as estradas nacionais, de preferência junto à costa. São perto de mil quilómetros de deleite visual. Mas este conselho adicional limita-se aos meses de Verão, pois nunca nos devemos esquecer que estamos a falar de uma das regiões mais molhadas do planeta, onde chove (dizem as estatísticas) 300 dias por ano!










