Automobilismo
18/08/2009 - 18:54Perigo de morte

Motores eléctricos ou híbridos podem ter futuro no Desporto Motorizado?
Dois factos, separados por uma dezena de dias, ofereceram-me o mote para esta crónica. Nela vou tocar um assunto que a maior parte dos observadores do fenómeno Desporto Automóvel parece querer varrer para debaixo do tapete, escondendo aquilo que, mais cedo ou mais tarde, irá estar bem presente.

Vamos aos factos. O primeiro foi o final do derradeiro episódio da famosa série da BBC, Top Gear, para muitos (eu incluído) o melhor programa de automóveis feito para televisão. No último segmento da série 13, Jeremy Clarkson, o amado/odiado apresentador, faz uma espectacular ode ao mais recente Aston Martin V12, que é também uma espécie de despedida a este tipo de super-carros, com fantasticamente sonoros e performantes motores de alta cilindrada. Uma previsão futurista demasiado radical para um fim anunciado?
O segundo facto chegou-me do EUA. A GM apresentou o Volt, um carro capaz de fazer 230 milhas com um galão de gasolina, o que em termos de normas europeias significa 1 litro aos 100 km. Tudo graças a dois motores eléctricos e a uma unidade a combustão que funcionaria como o pequeno motor num barco à vela – usa-se quando não há outra solução, para além de ajudar a carregar as baterias! O futuro com contornos mais realistas?

E o que tem tudo isto a ver com Desporto Motorizado? Simplesmente, não se pode ficar de olhos fechados sobre a evolução da sociedade… e dos costumes. O “verde” está na moda… até por necessidade! Por momentos, talvez há uma década atrás, as aventuras de biofuel, como acontece actualmente com os carros do WTCC, poderiam parecer suficientes. Hoje em dia, misturar 10 a 20 por cento de não poluentes a gasolina ou diesel, por muito “boa acção” que seja, “sabe a curto” para um planeta que clama por mudanças. O KERS da Fórmula 1, com a pouca adesão que teve e os problemas que trouxe para as equipas, também não tem sido grande propaganda.
Claro que todos sabemos que a poluição provocada pelos automóveis e pelas motos não é o maior flagelo mundial, longe disso. E o que o Desporto Motorizado poluí é mesmo uma fracção ridícula. Mas os veículos a motor para uso individualizado são mais facilmente atacáveis. Politicamente, por exemplo, valem menos votos que o fecho de industrias pesadas e o desemprego que tal poderia acarretar.
Numa altura em que a Federação Automóvel Internacional (FIA) vai a votos para escolher um novo presidente, seria interessante saber o que pensa cada candidato sobre as energias alternativas ligadas às corridas de automóveis. E a verdade é que isso não tem motivado debate.

Acreditarão Jean Todt, Ari Vatanen e (talvez) Michel Boeri ser possível ter num futuro próximo uma Fórmula 1 com motor eléctrico, ou pelo menos híbrido? E o hidrogénio, apesar do custo e da poluição que provoca fabricá-lo, será uma alternativa?
Já escrevi e afirmei em conversas que gostaria de ver a FIA (e porque não a FIM) a liderar este processo de conversão. Que melhor montra se poderia oferecer à competição do que a inovação?
Do topo da sua sabedoria, alguns “Velhos do Restelo” vão dizer que isso irá “matar as corridas”. Que não pode haver Desporto Motorizado sem baralho, sem motores a combustão. Que os motores eléctricos ou híbridos são a antítese daquilo que um espectador espera em termos de emoção. Não penso assim, e muito mais quando fica a ideia que, ou se muda, ou este desporto que amamos estará condenado a médio/longo prazo.
Um carro com motores eléctricos pode ser incrivelmente veloz, pode ter arranques fantásticos, pode permitir pontos de travagem bem interessantes. É verdade que teríamos de fazer “reset” na forma como assistimos às corridas. Mas antes isso que vê-las acabar. O “Perigo de Morte” não está na “Alta Tensão”, antes na ausência de soluções. É sempre bom reviver as memórias do passado, mas sem se abraçar o futuro “morremos” mais cedo.

João Carlos Costa, comentador Motores Eurosport










