Le mans series
14/06/2010 - 14:42 - Updated 14/06/2010 - 16:00A Fábula da Audi

Nunca a Fábula da Lebre e da Tartaruga ficou tão bem demonstrada como na edição 2010 das 24 Horas de Le Mans. A Peugeot foi uma lebre que correu demais. A Audi foi a tartaruga que soube como ganhar a corrida pela 9ª vez em 11 anos.
A história de Le Mans na primeira década o Século XXI escreve-se com Audi. A marca alemã estreou-se em 1999, ganhou pela primeira vez no ano seguinte, e daí para cá só perdeu por duas vezes - em 2003 para os “primos” da Bentley e no ano passado para a Peugeot e mesmo aí colocou sempre um dos seus carros no pódio. Desta feita, os R15 TDI Plus ocuparam os três primeiros lugares, como antes já tinha acontecido em 2000, 2002 e 2004. O lugar mais alto ficou para a equipa do carro nº 9, composta pelos alemães Timo Bernhard e Mike Rockenfeller e o francês Romain Dumas, que garantiram também um novo recorde absoluto de quilómetros percorridos (5410 km a uma média de 225,5 km/h, num total de 397 voltas), quase mais cem que o máximo anterior, datado de 1971 (Porsche 917K), quando o traçado não tinha chicanes.

Com tanta rapidez, como se justifica a entrada deste texto, perguntará o leitor? Como é que se pode apelidar um “avião” de tartaruga? É que, comparativamente à velocidade dos Peugeot 908 HDI, os R15 Plus foram bem mais lentos. Só que em Le Mans, como na Fábula, nem sempre a rapidez é tudo. É preciso ser-se sagaz, traçar a melhor táctica e não se deixar cair em tentações, menosprezando o adversário ou querendo esmagá-lo! E foi isso que a Peugeot tentou, esquecendo-se que para ganhar Le Mans é preciso ser-se rápido, mas saber poupar a mecânica. Os Audi fizeram isso; os Peugeot não foram capazes.
PEUGEOT CAÍRAM UM A UM
Após os treinos, onde os 908 HDI dominaram conquistando as quatro primeiras posições, parecia claro que dificilmente a Peugeot não ganharia a corrida. O que ninguém contava era que a marca francesa traçasse um plano “sempre ao ataque”. Os quatro carros realizaram 90 por cento das voltas “normais” abaixo dos 3m30s e dessas cerca de metade em menos de 3m25s, sendo que na melhor fizeram um tempo (3m19,074s) que bateu o da pole-position e o anterior recorde da pista, datado de 2008 quando os carros tinham mais 30 cavalos e menos 30 kg!
O primeiro Peugeot a cair foi o de Pedro Lamy (que fazia equipa com Bourdais e Pagenaut), logo no final da 2ª hora. O piloto português, que ainda não foi desta que ganhou Le Mans, viu a suspensão do protótipo ceder: “Foi na minha derradeira volta da minha primeira passagem pelo volante. Estava à caminho das boxes, quando de repente e sem qualquer explicação, a suspensão partiu. Ainda levei o carro até às boxes, mas a equipa afirmou que nada mais havia a fazer, pois o monocoque estava danificado. Infelizmente, as corridas são assim. Ainda não foi este ano que ganhei”, comentou o piloto português.
Ainda assim, a Peugeot continuou a liderar a prova. O carro nº 2 (Sarrazin/Montagny/Minassian) comandava desde a segunda hora (15ª volta), depois de passar o carro de Lamy. Na quarta hora (62ª volta), nova mudança na primeira posição, numa altura em que os Peugeot ainda dominavam e os Audi rapidamente perdiam uma volta. Dessa feita foi o nº1 (Wurz/Gene/Davidson) a ficar na frente e aí se quedou até à 8ª hora (120ª volta), quando um problema de alternador levou o carro à boxe durante 13 minutos (caiu para 8º). Regressou o Peugeot nº 2 ao comando, então com o 908 nº 4, o da Oreca (Panis/Duval/Lapierre), na 2ª posição. E assim ficou até ser o carro da Oreca a ter problemas de transmissão na 12ª hora - desceu para 6º. Os Audi 9 (Rokenfeller/Berhard/Dumas) e 8 (Treluyer/Fassler/Lotterer) estavam então atrás do Peugeot nº 2, a uma e duas voltas respectivamente, mas sem andamento para acompanhar o 908 líder. Antes, na 5ª hora, a marca alemã tinha visto atrasar-se o carro nº 7 (Kristensen/McNish/Capello) - cujos três pilotos somam 13 triunfos em Le Mans - quando Andy Priaulx atravessou o BMW na frente de Kristensen nas curvas Porsche e o oito vezes vencedor teve ir pela escapatória.

Nova desilusão para a Peugeot no início da 17ª hora. O comandante viu o motor ceder na 265 volta e assim a Audi, que fora sempre dominada em performance, colocava o R15 Plus com o nº8 na frente da geral pela primeira vez. O Audi nº9 era segundo e tinha cerca de uma volta de vantagem para o melhor Peugeot, que voltava a ser o nº 1. Com vários turnos-canhão por parte de Davidson e Wurz, o Peugeot chegou mesmo a passar o segundo Audi na 22ª hora (quando Lotterer saiu em frente em Arnage), voltando a colocar pressão no carro líder que tinha apenas uma volta de vantagem. Só que o motor desse 908 também cedeu quando faltavam pouco mais de 2 hora de prova.
Os Audi passaram a ocupar todos os lugares do pódio. Até ao final a corrida foi um passeio, mesmo se a Peugeot ainda tentasse ficar com o terceiro posto com o carro da Oreca. Quando Duval rodava nos limites à procura do impossível viu igualmente o motor do 908 partir-se a uma hora do fim. A marca francesa ficava sem carros e pela primeira vez em quatro participações não conseguia colocar (pelo menos) um 908 no pódio. Talvez por isso se percebam melhor as lágrimas do director desportivo, Olivier Quesnel, quando o último dos seus carros deixou a corrida.
Agora resta saber se haverá mais aventura em Le Mans para a Peugeot. Para o ano entram em vigor novas regras, onde os carros híbridos podem ter uma palavra a dizer. Já existe um 908 Híbrido, mas será que a marca francesa volta à aventura? Já a Audi confirmou que tem em construção um R18 Híbrido, pronto para lutar pelo 10º triunfo, em 2011.
PORTUGUESES AZARADOS

Para além de Pedro Lamy, o outro português presente no circuito, Miguel Pais do Amaral (Ginetta-Zytek), terminou na 20ª posição, juntamente com os companheiros Warren Hughes e Olivier Pla, assegurando o 7º posto na classe LMP2, de que a equipa ASM é campeã na Le Mans Series.
O sonho de chegar ao pódio da classe nas 24 Horas de Le Mans manteve-se bem vivo para Miguel Pais do Amaral e para o Quifel ASM Team durante mais de metade da corrida. Tudo decorria conforme o planeado até à 14ª hora da prova, a meio da madrugada, quando o Ginetta Zytek 09S da equipa portuguesa enfrentou um primeiro problema mecânico sério: "A luta pela terceira posição com o Pescarolo-Judd da OAK Racing estava controlada", recorda António Simões, Director do Quifel ASM Team, lamentando a quebra da transmissão do lado esquerdo do carro por volta da 3h40 da madrugada, numa altura em que se já percebia que a equipa portuguesa era a mais capaz para pressionar os dois HPD ARX.01 da frente, sem dúvida os mais rápidos da classe graças às suas motorizações Honda. “Conseguimos reparar a transmissão em menos de 40 minutos, mas caímos para o quinto lugar, a cerca de oito voltas da quarta posição", recorda o "team manager" Maurício Pinheiro, lamentando que o esforço para recuperar na classificação tenha ficado comprometido, em definitivo, já perto da 9h00 da manhã, quando uma falha de travões à entrada para a curva Arnage provocou um toque de Miguel Pais do Amaral, que se repetiu minutos depois, com mais violência, nas curvas Porsche.

"Os estragos no foram grandes e o carro teve de ser praticamente reconstruído pelos mecânicos", sublinha Maurício Pinheiro, elogiando o esforço que permitiu ao Quifel ASM Team cortar a meta no restrito grupo dos sobreviventes. "Ainda não percebemos o que falhou naquela travagem, mas não posso deixar de salientar o trabalho feito pelos engenheiros e pelos mecânicos na recuperação do carro, ao ponto de o Olivier Pla ter feito o melhor tempo nas últimas voltas, batendo mesmo a marca dos treinos cronometrados", refere Miguel Pais do Amaral, lamentando que o sonho do pódio se tenha esfumado de forma inglória, depois de ter ficado evidente o potencial da equipa. António Simões sublinha isso mesmo: "A equipa mostrou grande maturidade, funcionou em pleno e isso é um sinal muito positivo para o futuro", concluiu o lisboeta que anunciou em Le Mans a passagem para a categoria principal LMP1 no próximo ano, onde representará oficialmente a Zytek e terá um carro com motor híbrido.
De fora ficaram também os lusos-franceses Manuel Rodrigues e Frederic da Rocha. O primeiro teve várias saídas de pista com o Audi R10 da Kolles e Da Rocha viu o estreante Norma-Judd ficar pelo caminho com problemas mecânicos após apenas 40 voltas.
AS OUTRAS VITÓRIAS
Nos protótipos LMP2, o HPD ARX da Strakka Racing guiado por Kane/Watts/Leventis foi o vencedor e acabou num fantástico 5º posto da geral. Este foi o melhor resultado de sempre de um carro dessa classe, só perdendo o triunfo nos carros a gasolina para o Oreca 01-AIM, que acabou em quarto a 28 voltas do vencedor.
A categoria LMP2 foi o único caso onde a maior rapidez resultou em triunfo. Nas classes de GT, tal como na vitória à geral, a resistência pagou dividendos. Nos GT1, o Sallen da Labre (Gardel/Belville/Canal) era mais lento que o Aston Martin e os Ford GT, mas foi quem não teve problemas de maior, e acabou por vencer (13º da geral). Nos GT2, a batalha inicial entre Corvette e Ferrari, que viu dois carros chegarem a ultrapassar-se numa só volta por quatro vezes(!!!), acabou por não ter resultados práticos. O Ferrari da Risi teve problemas de motor, e os Chevrolet oficiais também desistiram, um com a caixa partida e o outro depois de ser empurrado para fora de pista pelo Peugeot nº 1. Isso abriu as portas da vitória ao Porsche da Felbermayr (Lieb/Henzler/Lietz) que ficou em 11º da geral.

O britânico Nigel Mansell teve uma estreia azarada. O ex-campeão mundial de Fórmula 1 bateu num rail na zona mais rápida da pista (antes da curva Indianapolis) logo à quinta volta e teve de ser levado para o centro médico. O piloto de 56 anos foi vítima de uma comoção cerebral. Também muito conhecidos da F1, Giancarlo Fisichella e Jean Alesi terminaram na quarta posição dos GT2 e 16ºs da geral com um Ferrari F430.
NÚMEROS PARA A HISTÓRIA
5ª vitória do carro nº 9 (1925, 1950, 1959, 2009 e 2010) em 78 edições
9ª vitória Audi que iguala a Ferrari como a 2ª marca mais vitoriosa de sempre – só a Porsche tem mais triunfos (16).
27ª vitória de um carro alemão
51ª vitória de um carro aberto
47ª vitória de um carro de motor central
3ª vitória de um motor V10
32ª vitória de uma motor sobrealimentado
5ª vitória de um motor diesel
19ª vitória dos pneus Michelin
1ª vitória para Romain Dumas, Timo Bernhard e Mike Rockenfeller
Um francês não ganhava desde Yannick Dalmas em 1999
2ª vitória nos GT1 para a Larbre Compétition
1ª vitória na classe GT2 para a Felbermayr Proton (GT2) e para a Strakka Racing (LMP2)
1ª vitória para um Saleen (GT1) e para um HPD ARX (LMP2)
44ª vitória à classe para a Porsche
Novo recorde de distância - 5410,713 km (anterior máximo era de 5335,313km, em 1971, com o Porsche 917K de Marko/Van Lennep)
4ª tripla da Audi (2000, 2002, 2004)
Acabaram 28 carros, mas só 27 foram classificados dos 56 que iniciaram os treinos (55 alinharam na corrida)
238.400 espectadores










