Le mans series
09/06/2010 - 08:04 - Updated 09/06/2010 - 08:15Os “Navegadores” do volante

Dos anos 50 do século XX até aos dias de hoje, muitos portugueses passaram pelas 24 Horas de Le Mans. Hora de recordar feitos antigos e de falar dos quatro pilotos lusos que se aventuram na edição 2010. Estes “Navegadores” não chutam na bola, mas tem belo “golpe” de volante.
A edição 78 das 24 Horas de Le Mans volta a ter portugueses à partida. Ao todo são quatro, ainda que dois deles utilizem licença desportiva francesa… mas nasceram em Portugal.
Claro que o destaque vai para Pedro Lamy, que acredita ser na 11ª presença em Le Mans que junta o triunfo nas 24 Horas ao seu muito recheado palmarés. E se o conseguir, uma vez mais fazendo parte da aventura Peugeot dividindo um 908 com Sebastien Bourdais e Simon Pagenaud, conseguirá o melhor resultado individual do Desporto Automóvel português.
Se Lamy está na luta da vitória à geral, Miguel Pais do Amaral conta com o Ginneta-Zytek para chegar ao triunfo na categoria dos protótipos menos competitivos, os LMP2, onde participa em Le Mans pela quinta vez. Caso chegue ao lugar mais alto do pódio, tudo terá um sabor ainda mais lusitano, pois o carro que divide com o francês Olivier Pla e o britânico Warren Hughes é inscrito e preparado pelo team ASM de António Simões.
Manuel Rodrigues é outro dos pilotos nacionais que pode chegar ao Top 10. Aos 47 anos, o lisboeta radicado em França vai estar aos comandos de um dos Audi R10 TDI da equipa Kolles que no ano passado acabaram em 7º e 9º.
O quarto representante luso é Frederic da Rocha, outro “gentleman-driver” luso-francês, nascido em Barcelos à 56 anos, e que se estreia nas 24 Horas.
AS AVENTURAS DO PASSADO
As 24 Horas de Le Mans são, na actualidade, a mais importante competição automóvel do mundo, captando o interesse e o imaginário de muitos aficionados e pilotos. Portugal também não podia ficar indiferente ao fenómeno e tudo o que diga respeito à mítica corrida francesa reúne legiões de aficionados, quer nas audiências das transmissões televisivas, quer na venda de miniaturas de colecção, quer ainda no desejo de muitos pilotos participarem, um dia, na mítica maratona francesa. Alguns já o conseguiram e, em traços gerais, é a história deles que vamos aqui narrar.
Nos anos 50, as corridas de Sport eram muito populares em Portugal, com provas internacionais disputadas em Vila Real, Monsanto e Boavista e com diversos pilotos nacionais muito bem equipados e capazes de discutir lugares os lugares cimeiros com as vedetas que nos visitavam. A nível internacional passava-se o mesmo, com um Campeonato Mundial iniciado em 1953 e com corridas de Sport disputadas um pouco por todo o lado. No topo da importância destas competições situavam-se já as 24 Horas de Le Mans, um pouco pelo desafio supremo de resistência, um pouco também por força do acidente de 1955, muito divulgado na imprensa da época. No entanto, apesar da popularidade, Le Mans continuava um sonho impossível para os pilotos nacionais. Estes ensaiavam regularmente participações em corridas internacionais, como os 1000 km de Nürburgring, prova fetiche de uma geração de volantes, mas evitavam a clássica francesa devido aos custos e às características da prova.
O primeiro piloto português a alinhar nas 24 Horas de Le Mans foi Carlos Manuel Garcia Reis, campeão nacional de Turismo Especial em 1957, que aceitou o convite para participar ao volante de um pequeno e elegante Stanguellini 740 Bialbero, equipado com um motor de 748cc, do seu amigo Raymond Quilico.
1972: UM ANO INFELIZ
Depois, viveu-se um hiato de 12 anos sem presenças nacionais em pista, embora a clássica francesa não deixasse de ser cada vez mais popular em Portugal, com transmissões em directo pela RTP e pelo Rádio Clube Português. O regresso, ainda que incompleto, deu-se através daquele que na época era um dos nossos melhores pilotos e, certamente, o mais conhecido a nível internacional: Mário de Araújo “Nicha” Cabral.
O piloto do Porto - que já tinha estado inscrito dois anos antes para correr no Porsche 907 de André Wicky - foi convidado em 1972 por Jo Bonnier para partilhar a condução de um dos competitivos Lola T280 DFV - patrocinados pelos queijos suíços – uma espécie de equipa oficial da Lola gerida pelo piloto sueco. Cabral teria como companheiros de equipa o belga Hughes de Fierandt e o Espanhol Jorge de Bragation, mas um desentendimento, após os treinos, quanto à ordem dos turnos para a prove fez com que o piloto se recusasse a alinhar nas primeiras horas e o carro desistiria antes de Cabral se sentar ao volante. Pior ainda, o patrão da equipa viria a perder a vida num acidente ao nascer do dia, numa participação que, obviamente, não deixou boas recordações a ninguém.
1996: PORQUÊ TANTA ESPERA?

Depois, sem provas nacionais de GT ou protótipos e com o interesse das autoridades desportivas e dos media virados para os fórmulas e para os troféus monomarca, foi-se criando um progressivo distanciamento em relação a este tipo de corridas, outrora tão popular entre os pilotos nacionais. Note-se que somente em 1996 se verificou o regresso dos portugueses ao mundo dos sportscars com a ideia longamente amadurecida dos irmãos Mello-Breyner (Manuel, Pedro e Tomás) quererem participar em Le Mans. Para se habituarem à condução do carro, alinharam em Jarama numa prova do campeonato de BPR (de Barth, Peter e Ratel) com um Porsche 911 GT2 da equipa suíça Seikel, e mesmo falhando a qualificação para as 24 Horas de Le Mans, deram inicio a uma aventura que se prolongou por 3 anos e, acima de tudo, relançaram o interesse e o gosto dos portugueses por esta modalidade, passando desde então a ser comum a participação de pilotos lusos nas mais diversas provas de protótipos e de GT que se disputam no mundo, do Japão aos EUA, mas acima de tudo, nas 24 Horas de Le Mans.
Logo no ano seguinte, 1997, os três irmãos Mello Breyner mudaram de equipa e conseguiram a qualificação com um Porsche 911 GT2 preparado por Fabian Roock. Por seu turno, o então jovem Pedro Lamy alinhou ao volante de um Porsche 911 GT1 da equipa Schübel, cuja condução dividiu com Armin Hahne e Patrice Goueslard. No final, os três irmãos ficaram em 11º da geral e 3º entre os GT2 e Pedro Lamy conseguiu um bom 5º posto da geral, 3º do grupo e sendo o melhor classificado entre os que usaram os novos Porsche 911 GT1.
Em 1998 um contingente reforçado de seis pilotos partiu ao assalto do circuito de La Sarthe, com Pedro Lamy – ao volante de um Chrysler Viper GTS-R da equipa Oreca – Gonçalo Gomes, Ni Amorim e Manuel Mello Breyner – Chrysler Viper Chamberlain Engineering – e ainda Manuel e Michel Monteiro – Porsche 911 GT2. No final, o melhor foi Pedro Lamy, 13º da geral e 2º entre os GT2.
1999: ANO RECORDE
O ano do recorde de participações foi 1999, com nada menos que oito pilotos lusos à partida das 24 Horas: Pedro Lamy no Mercedes CLR oficial, Manuel, Pedro e Tomás Mello Breyner com um Chrysler Viper GTS-R, Ni Amorim num Viper GTS-R da Chamberlain, Tiago Monteiro noutro Viper –da equipa de Paul Belmondo – e, mais uma vez, Manuel e Michel Monteiro, que no Porsche 911 GT2 acabariam por abandonar a cerca de 15 minutos do final da corrida. Apesar de ter passado pelo comando da prova – a primeira vez que tal sucedeu à equipa de um piloto português - Pedro Lamy também abandonou por ordem da equipa, devido aos conhecidos problemas com os “Mercedes voadores”. No final o melhor representante das cores nacionais foi Ni Amorim, 14º da geral e 3º entre os GTS.
No ano seguinte, 2000, apenas Ni Amorim viria a participar em Le Mans, agora integrado na equipa oficial Chrysler Oreca, tendo obtido o 9º lugar absoluto e 2º entre os GTS, resultado que não passou despercebido entre o staff da Oreca.
2001: LAMY PERTO DO PÓDIO

Em 2001, a mesma Oreca, representante da Chrysler nas provas de endurance, deu um passo em frente e passou para a classe dos protótipos, com um novo modelo com chassis projectado na empresa de Hughes de Chaugnac, feito na Dallara e motorizado com um V8 Chrysler/Mopar. De modo até então inédito, foram dois os pilotos portugueses convidados para integrar o projecto: Ni Amorim e Pedro Lamy. Se o primeiro viria a desistir devido a um incêndio no carro, Pedro Lamy concluiu a corrida em 4º da geral, atrás dos imbatíveis Audi oficiais. Ainda nessa edição participaram também Luís Marques – 17º da geral e 8º do grupo no Porsche 911 GT3 RSR de Luc Alphand – e Tiago Monteiro – 20º da geral e 4º entre os GTS, com um Viper GTS-R da Larbre Competition.
Em 2002, Pedro Lamy continuou a colaboração com a Oreca, agora ao volante de um protótipo equipado com motor Judd V10 que concluiu a corrida em 5º da geral, mais uma vez atrás dos inatingíveis carros do Grupo VAG, ou seja, os três Audi R8 e o Bentley EXP Speed 8. A bandeira portuguesa apareceu também num Saleen preparado pela equipa de Ray Mallock, entregue aos cuidados de Pedro Matos Chaves, Miguel Ramos e do britânico Gavin Pickering, que concluíram a corrida no 5º lugar entre os GTS.
Em 2003, ano do triunfo da Bentley, estiveram presentes apenas dois pilotos nacionais, Pedro Matos Chaves, num Saleen S7R da Graham Nash Motorsport – 22º e 7º do grupo – e Luís Marques num Chrysler Viper GTS-R que viria a desistir.
2004: BARBOSA REPETE LAMY
Chegados a 2004, João Barbosa foi o único piloto português presente, convidado por Martin Short para partilhar a condução de um Dallara Judd da equipa Rollcentre. Melhor estreante nos treinos, Barbosa efectuou uma corrida brilhante apenas interrompida ao nascer do dia, na sequência de um desentendimento entre o Pescarolo de Sébastian Bourdais e Short, quando o Dallara seguia num confortável 4º posto da geral.
2005 foi um mau ano em termos de resultados, com as desistências de Ni Amorim – Courage C65 – Pedro Lamy – Aston Martin DBR 9 – e Miguel Ramos – Ferrari 550 Maranello da BMS Scuderia Italia. O único português classificado foi João Barbosa, num modesto 16º lugar da geral com o Dallara Judd da Rollcentre, após uma corrida recheada de problemas.
Um ano depois, em 2006, Pedro Lamy voltou a alinhar integrado na equipa oficial da Aston Martin – 5º do Grupo- João Barbosa correu com um Radical SR9 LMP2, inscrito pela Rollcentre – 5º do Grupo – e Miguel Pais do Amaral estreou-se em Le Mans, ao volante do Lola B05/40 que tinha adquirido a Hugh Chamberlain, cuja equipa inscreveu o carro para aproveitar o convite do ACO, embora este fosse já assistido pela portuguesa ASM, de António Simões.

2007: LAMY A UM CURTO PASSO DA VITÓRIA
Novamente três presenças lusas em 2007, com Miguel Pais do Amaral, uma vez mais com o Lola B05/40 ERA, agora já assumidamente inscrito pela ASM, João Barbosa brilhante 4º classificado num novo Pescarolo 01 Judd da Rollcentre e, por fim, Pedro Lamy, integrado na equipa oficial da Peugeot e 2º da geral ao volante do Peugeot 908 Hdi FAP, a melhor classificação até agora obtida por um português em Le Mans.
Continuando na equipa Peugeot, Pedro Lamy partiu da “pole position” em 2008 para comandar as duas primeiras horas de prova, num intenso duelo com a equipa Audi. Atrasado por problemas com o selector de mudanças, o 908 acabaria por terminar num frustrante 5º lugar, de uma corrida ganha pela Audi. João Barbosa, no Pescarolo 01 da Rollcentre, conheceu também alguns problemas e viria a quedar-se por um razoável 11º da geral e 5º entre os LMP1 a gasolina. Miguel Pais do Amaral, a braços com um algo ultrapassado Lola B05/40, dividiu a condução com Guy Smith – vencedor em 2003 – e Olivier Pla, vindo a conseguir o 4º posto entre os LMP2.

No ano passado (2009), Pedro Lamy estava no carro mais veloz da Peugeot, mas um toque no 908 da Pescarolo numa manobra de boxes logo no início da prova, acabou por comprometer definitivamente o resultado. Terminou em 6º. João Barbosa viu de novo os seus méritos reconhecidos por Henry Pescarolo levando um dos protótipos do ex-vencedor até ao 8º posto final, terceiro entre os carros a gasolina. Miguel Pais do Amaral desistiu ainda no ¼ da corrida com vários problemas no Ginetta-Zytec 09S, enquanto Tiago Monteiro, chamado por Hugues de Chaugnac para ocupar um lugar nos seus novos e competitivos Oreca 01 AIM, viu os companheiros “amarrotar a chapa” ao protótipo francês. Manuel Rodrigues guiou um Ferrari 430 da JMB Racing, acabando em 29º da geral e oitavo dos LMGT2.
PORTUGUESES DO LADO DE FORA
Até ao momento, foram estas as participações das cores nacionais nas 24 Horas de Le Mans. A estes nomes podemos ainda juntar o de Hélder de Sousa, cronometrista na equipa do Conde Van der Straaten – VDS – que participou em 1970 com um Lola T70 Chevrolet, ou ainda o de Domingos Piedade, director desportivo da Joest Racing e um dos obreiros dos triunfos da equipa em 1984 e 1985, com o mesmo Porsche 956 (chassis 117) com as cores da New Man. Até ao momento, Piedade foi o único português a conhecer o gosto da vitória nas 24 Horas de Le Mans, ainda que situado do outro “lado do muro”.










