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29/10/2009 - 15:46

A nova “Corrida ao Ouro”


O golfe e o Olimpismo - GOLFE
PA Photos

O golfe movimenta milhões e a entrada nos Jogos Olímpicos em 2016 vai desencadear uma nova “Corrida ao Ouro”.

Após duas presenças, em 1900 e em 1904, o golfe regressa aos Jogos Olímpicos. Com as verbas astronómicas que a modalidade movimenta à escala mundial, há quem diga que estamos perante uma nova “corrida ao ouro”, onde o taco e a bola irão substituir a “peneira de garimpar”.

O golfe e o Olimpismo - GOLFE

O golfe é, hoje em dia, um desporto global. E os Jogos Olímpicos são o maior exemplo de globalidade no desporto. Com mais exposição, os dois lados vão ficar a ganhar”, palavras do nº 1 do mundo, Tiger Woods, que dizem muito sobre o significado do retorno do golfe às Olimpíadas, agendado para 2016, no Rio do Janeiro, exactamente 112 anos depois de terem tido a última participação em St.Louis.

Claro que o impacte seria ainda maior caso as Olimpíadas de “reentrada” acontecessem num pais de golfe, como os EUA ou a Grã-Bretanha. No entanto, a exemplo do que sucedeu com o regresso do ténis em 1984, ou a presença dos super-profissionais da NBA no basquetebol, ver “Tiger Woods & Co” a desfilar na cerimónia de abertura dos Jogos do Rio de Janeiro, dentro de sete anos, será seguramente notícia de primeira página.

Penso que vai ajudar a fazer crescer o golfe... a todos os níveis. Vai tornar a modalidade ainda mais conhecida, elevar a estatura deste desporto em vários, e muito positivos, aspectos”, palavras da sueca Annikka Sorenstam, durante muitos anos a “Tiger Woods” do golfe profissional feminino. A actual nº1, a mexicana Lorena Ochoa, reforça a ideia: “Vai fazer com que haja mais interesse pela modalidade, torná-la mais popular. Digamos que irá dar corpo à ideia de todos puderem, pelo menos uma vez, experimentar dar umas tacadas”.

O golfe e o Olimpismo - GOLFE

E, claro, há todo o ritual de se ser atleta olímpico, até aqui um prazer que estava impedido aos jogadores de golfe: “O melhor da minha vida aconteceu quando tive vestir as cores do meu país - fazer parte de uma equipa nacional, ir para o campo e ter muita gente a apoiar-nos. É algo que adoro. E nos Jogos Olímpicos essa sensação será ainda mais forte”, comentário esclarecedor da americana Paula Creamer.

 

UMA ESCOLHA NATURAL

Foram dois anos de intensa campanha antes da votação dos membros do Comité Olímpico. E resultou: houve 63 votos a favor e 27 contra.

Para trás ficaram as críticas daqueles que acusam o golfe de ser um dos desportos mais profissionalizados e que mais longe estará do espírito olímpico do Barão de Coubertin. Mas se o futebol e o ténis fazem parte do Movimento Olímpico, porquê razão excluir o golfe? No fundo, foi isso que os membros do COI terão pensado na votação em Copenhaga.

O importante é o golfe ser um desporto muito popular. E os Jogos Olímpicos, como principal montra desportiva, tinham de ter golfe. A congregação de vontades irá tornar a modalidade ainda mais forte. Teremos uma maior divulgação e também um maior conhecimento do golfe ao redor do planeta. Foi a pensar nessas razões que apostámos fazer em fazer o golfe regressar aos Jogos”, explica Peter Dawson, secretário da R&A, a entidade que controla as regras da modalidade em todo o mundo, excepto EUA, Canadá e México, sendo até mais importante que a própria Federação Internacional. “Um dos pontos mais positivos desta candidatura foi a boa relação que gerou entre o golfe amador e profissional. Através da Federação Internacional unimo-nos com este propósito. Um maravilhoso processo de harmonia que poderá manter-se no futuro para benefício de todos”, diz Dawson, assumindo, desta forma, que a R&A poderá ceder parte da importância que tem na modalidade há mais de 100 anos.

JOGOS OLÍMPICOS PODEM SER 5º MAJOR

O golfe e o Olimpismo - GOLFE

A chave para o triunfo é explicada por Ty Votaw, presidente executivo da Federação Internacional de Golfe. “O que fizemos foi contar uma história… e mantê-la, fosse no Conselho Executivo, fosse perante todos os membros do COI, na Assembleia-Geral. Foi gratificante ver que causámos sempre boa impressão. A verdade é que a história do golfe é universal, e a modalidade compartilha os mesmos valores do Movimento Olímpico. Para além disso, temos o apoio dos melhores jogadores do mundo. Digamos que todos os agentes envolvidos na modalidade se uniram”.

Quase não houve vozes discordantes. Até Tiger Woods, que há uns anos era avesso à hipótese de ver o golfe nos Jogos Olímpicos, mostrou o seu apoio. E não foi o único. “Daqui a 100 anos, os Jogos Olímpicos podem vir a ser o 5º Major! Claro que não acontece de um dia para o outro... tanto mais que só há olimpíadas de quatro em quatro anos. Mas com o passar do tempo, os Jogos têm tudo para ser um grande evento de golfe”, admite Padraig Harrington, num discurso subscrito por Rory McIlroy, o norte-irlandês revelação do ano: “a princípio pensava que tudo isto não seria justo, nem benéfico, para os atletas de outras modalidades que treinam quatro anos a pensar nos Jogos Olímpicos. Para eles, nada é mais importante que as Olimpíadas. Mas agora percebo o quanto também pode ser enorme para o golfe”.

POUCAS VOZES DISCORDANTES

Alguns nunca acreditaram que o golfe chegasse a modalidade olímpica. Frank Nobilo, ex-jogador e actual comentador televisivo no “Golf Channel” foi um deles. Outros falavam da força do dinheiro... e de como a hipótese de alcançar uma “simples” medalha de ouro olímpica dificilmente seria motivadora para um jogador como Tiger Woods, habituado a fortes prémios de presença (3 milhões de dólares por torneio!!!), a participar nas Olimpíadas. Outros ainda, referiam que a interrupção do USPGA durante três semanas poderia colocar problemas com os patrocinadores do mais conceituado Tour do “planeta golfe”.

Haverá sempre vozes discordantes. Para muitas modalidades a medalha de ouro olímpica é o pináculo. No golfe é costume ser o triunfo num Major. Mas depois de ouvir todos os argumentos, percebo agora o quanto os Jogos serão importantes para a divulgar o golfe a uma audiência alargada”, admite Lee Westwood.

MUITO DINHEIRO EM JOGO

O golfe e o Olimpismo - GOLFE

O COI percebeu a mensagem. A escolha foi feita, não apenas pela razão do golfe ser mundialmente reconhecido, como também pela forte componente financeira.

Fala-se muito de universalidade. É importante que a modalidade seja praticada no maior número de países possível e que tenha audiência. Mas há ainda a questão financeira. O golfe tem os patrocinadores que queremos atingir e espectadores televisivos a que queremos chegar, oferecendo assim uma audiência em crescendo aos Jogos Olímpicos”, explica Christophe Dubi, director de desportos do COI.

Para além da força de ser uma modalidade com 500 milhões de espectadores em quase 200 países, o factor publicitário não será de descurar. O golfe trás aos Jogos grandes ídolos e com eles grandes patrocinadores. Os mesmos que permitiram a Tiger Woods ser o primeiro atleta a ultrapassar os mil milhões de dólares em ganhos ao longo da carreira. Para além disso, a modalidade representa um mercado que só nos Estados Unidos vale 75 mil milhões de dólares/ano.

O golfe vai trazer muita coisa ao olimpísmo - o espectáculo, a mediatização e a universalidade, pois é praticado e seguido em todo o mundo. E vai dar-nos ídolos, tais como Tiger Woods e outros grandes nomes que já confirmaram a vontade de estar presentes. Mas o golfe tem ainda outra peculiaridade – é um desporto com fair-play e cavalheirismo”, sublinha Jacques Rogge, o presidente reeleito do Comité Olímpico Internacional.

O Eurosport foi a Londres falar com o responsável pelo golfe europeu na IMG, a maior empresa mundial de gestão desportiva. Guy Kinning ajudou-nos a perceber os ganhos substanciais para todas as partes envolvidas nesta nova aventura.

“Penso que estamos num momento crucial. Por exemplo, Tiger Woods é ainda relativamente novo. Está na casa dos trinta! Ainda tem muita carreira pela frente, muito para conquistar. E muito tempo para influenciar, mais ainda, o futuro de uma modalidade que está em grande mutação. Já não é mais um desporto de homens brancos de meia-idade e classe média.

Depois há a questão dos mercados emergentes no golfe, como a Ásia, o Médio Oriente, talvez a Índia, a América do Sul, a Europa de Leste ou até o Norte de África. São áreas onde se espera um crescimento do interesse nos próximo anos. O facto de ser modalidade olímpica ajudará a que esse crescimento seja mais célere e venha a atrair ainda mais pessoas. Ao mesmo tempo, poderá levar à criação de academias, de programas de treino, de mais campos de golfe e de outro tipo de instalações, como driving ranges”.

O golfe e o Olimpismo - GOLFE

Mudanças de latitude na base de apoio do golfe que já se vêm sentindo. O mercado chinês, por exemplo, está cada vez mais forte. Novos campos a nascer, alguns com a chancela de grandes jogadores, como Tiger Woods, que cobra 10 milhões de dólares por colocar a assinatura num projecto, ou de estrelas do passado, como Jack Nicklaus e Gary Player. “Tudo isto abre novas oportunidades. Esperamos um ‘boom’ de construção de campos de golfe ao redor do mundo. Claro que tem de haver investimento e não é preciso pressa. O ideal é que esse crescimento esteja a par com a entrada do golfe nos Jogos de 2016”, refere Kinning.

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