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27/06/2010 - 20:39 - Updated 29/06/2010 - 15:47

Mundial 2010: Sim ou Não à tecnologia?


Sim ou Não à tecnologia? - FUTEBOL
Reuters

Os últimos erros do Mundial 2010 levam os jornalistas Pedro Nascimento e Gonçalo Moreira a debater a introdução das novas tecnologias no futebol. E você, é contra ou a favor? Expresse a sua opinião via Twitter, na CabineEurosport.

PEDRO NASCIMENTO - CONTRA

E se a equipa de arbitragem chefiada por Jorge Larrionda tivesse validado o golo que daria o empate à Inglaterra nos oitavos-de-final do Mundial FIFA de 2010? Teria sido a tão proclamada «verdade desportiva»? Claro que seria o único desfecho possível num lance em que a bola esteve quase um metro dentro da baliza, mas a equipa de arbitragem (especialmente o auxiliar) errou. E errar, que me pareça, ainda é humano. Os adventistas da tecnologia no Futebol, do «chip» na bola, do olho de falcão, do vídeo-árbitro, ficam mais irados com isto do que os ingleses, eles próprios uma única vez campeões do mundo numa final em que... marcaram um golo que nunca entrou na baliza.

De que valeria mandar parar o jogo e correr a espreitar para um monitor de TV? Valeria o empate à Inglaterra, certamente. E o jogo poderia ser diferente, claro. Mas e se o Robert Green não tivesse dado aquele «frango» contra os EUA? A Inglaterra não estaria, certamente, a jogar os oitavos-de-final com a Alemanha, independentemente de ter ou não futebol suficiente para derrotar o Gana. Mas tudo se resume a isto: erro. O árbitro errou. Robert Green errou. Humanos são.

Para quê «inventar» tecnologia para um desporto que já tem tanta tecnologia, como as chuteiras ultra-leves, a bola costurada a microondas que ninguém gosta, as camisolas com respiradores, as caneleiras de kevlar que nem todos gostam mas são obrigados a usar. Estamos a falar do mesmo desporto em que, na mais emotiva celebração de um golo, um jogador é advertido por... hum... tirar a camisola. E querem que a mais avançada das tecnologias venha colocar um ponto final nos erros de arbitragem? Como?

Alguém acredita que a equipa de arbitragem de Larrionda não validou o golo que daria o 2-2 à Inglaterra de forma deliberada? E se um árbitro manda jogar porque acha que a bola não entrou na baliza, vai ter um instantâneo rebate de consciência e interrompe a partida para ir espreitar um vídeo? «Para isso é que devia existir um vídeo-árbitro», oiço dizer. E qual árbitro, no seu perfeito juízo, toma a decisão de consultar um vídeo-árbitro para ajuizar um lance em que não tem dúvidas? E se o vídeo-árbitro puder decidir «por cima» do árbitro de campo e corrigir-lhe uma má decisão, que falta faz ter um árbitro de campo?

Vamos virar a questão ao contrário: imagine que o senhor Günter Benkö, o austríaco que arbitrou a semi-final do Euro 2000 entre Portugal e França, errava ao ajuizar o lance da mão-na-bola de Abel Xavier e não assinalava penalty (e atenção que, sublinho, na realidade ele ajuizou de forma correctíssima e não precisou de video-árbitro para o fazer). Gostaria de ter visto um vídeo-árbitro levantar-se do lugar para corrigir o senhor Benkö? E gostaria que as novas tecnologias tivessem ajudado a esclarecer a mal-assinalada grande penalidade cometida sobre Fernando Chalana contra a URSS, que levou Portugal ao Euro 1984 em França? E os benfiquistas [clubismos à parte, apenas os evoco por questão de exemplo] que exigiam um meio electrónico que ajudasse a ver que Vítor Baía foi defender uma bola dentro da baliza num jogo contra o F.C. Porto, gostariam que alguém tivesse corrigido o golo marcado com a mão (pelo angolano Vata) que levou as águias à final da Taça dos Campeões em 1989-90?

É Futebol. É assim há mais de um século. Os jogadores erram e nós não deixamos de gostar de Futebol. Ou vamos querer pôr um íman nas luvas de Robert Green? Ou um «chip» direccional na bota do nigeriano Yakubu, para que ele não tivesse falhado o golo que poderia levar a Nigéria aos oitavos-de-final do Mundial de 2010? É futebol e nós gostamos dele assim. Lembremo-nos sempre disto: dentro das quatro linhas, quem mais erra até são os jogadores - cometem erros defensivos, erros de marcação, erros de concretização, erros disciplinares. Até ver, as equipas de arbitragem, das três que entram em campo, até são das que erram menos. E de repente estamos a tentar mudar o Futebol por causa daqueles que até costumam ser os mais acertados de todos?

O segundo dia dos oitavos de final foi fatal para os árbitros, que diga-se, até tiveram uma primeira fase de Campeonato do Mundo bastante positiva. Os erros grosseiros no Alemanha-Inglaterra e no Argentina-México, em fases do jogo em que tudo estava em aberto, são admissíveis, porque errar é humano. Mas porquê continuar a ignorar o óbvio? O mundo em que vivemos utiliza diariamente a tecnologia para facilitar o dia-a-dia de cada um, mas ainda hoje a mesma é vista com desconfiança pelos puristas do futebol, que defendem que o desporto rei deve manter-se fiel às suas raízes.

Essa é uma teoria gasta e sem espaço, num desporto em que são investidos milhões em publicidade, merchandising, infra-estruturas e metodologias de treino cada vez mais científicas e apoiadas nas últimas descobertas informáticas. Futebol não é wrestling e para acabar com a suspeição é preciso contribuir para aumentar a transparência. Porque não começar por engolir o orgulho e acabar com a ideia de que as novas tecnologias vão matar o futebol?

Muitos perguntam por onde começar. Eu acredito que o caminho pode ser o vídeo-árbitro. Esta seria uma solução barata, quando comparada com o chip na bola ou o olho de falcão, já que acrescentaria apenas um elemento aos quatro árbitros que acompanham um jogo de futebol. Além disso, acredito que daria uma resposta à altura dos que dizem que o ritmo de jogo seria perturbado, já que com as repetições a que temos acesso quase em tempo real as decisões podem ser tomadas em segundos.

À semelhança do que aconteceu esta temporada na Liga Europa, onde foi feita a experiência com a introdução dos árbitros de baliza, também nesta competição poderia ser testado o vídeo-árbitro, de forma a analisar a reacção de todos os envolvidos. Acredito que ninguém nasce com o dom da verdade e que por isso se devem testar algumas opções antes de se avançar para algo em definitivo.

O autismo da milionária FIFA tem estado encapotado pelo argumento da preservação da essência do desporto rei, mas o que dizer aos irlandeses da mão de Henry? Quem paga o investimento feito pela Federação em Giovanni Trapattoni, as horas passadas em estágio e os prémios que se perdem pela ausência do Mundial? Quem explica aos irlandeses que não podem apoiar sua selecção, o grande motivo de orgulho de uma nação a quem falta uma liga de renome?

Haveria inúmeros exemplos para demonstrar situações em que a verdade desportiva foi adulterada, mas o essencial não é distribuir culpas, é preciso isso sim, encontrar soluções capazes de credibilizar um desporto que emociona milhões e que não pode estar dependente dos Jorge Larrionda e dos Koman Coulibaly deste mundo. Eles, tal como nós, são intervenientes do jogo e não têm o direito de nos privar do espectáculo que os artistas estão dispostos a dar.

GONÇALO MOREIRA - A FAVOR

O segundo dia dos oitavos de final foi fatal para os árbitros, que diga-se, até tiveram uma primeira fase de Campeonato do Mundo bastante positiva. Os erros grosseiros no Alemanha-Inglaterra e no Argentina-México, em fases do jogo em que tudo estava em aberto, são admissíveis, porque errar é humano. Mas porquê continuar a ignorar o óbvio? O mundo em que vivemos utiliza diariamente a tecnologia para facilitar o dia-a-dia de cada um, mas ainda hoje a mesma é vista com desconfiança pelos puristas do futebol, que defendem que o desporto rei deve manter-se fiel às suas raízes.

Essa é uma teoria gasta e sem espaço, num desporto em que são investidos milhões em publicidade, merchandising, infra-estruturas e metodologias de treino cada vez mais científicas e apoiadas nas últimas descobertas informáticas. Futebol não é wrestling e para acabar com a suspeição é preciso contribuir para aumentar a transparência. Porque não começar por engolir o orgulho e acabar com a ideia de que as novas tecnologias vão matar o futebol?

Muitos perguntam por onde começar. Eu acredito que o caminho pode ser o vídeo-árbitro. Esta seria uma solução barata, quando comparada com o chip na bola ou o olho de falcão, já que acrescentaria apenas um elemento aos quatro árbitros que acompanham um jogo de futebol. Além disso, acredito que daria uma resposta à altura dos que dizem que o ritmo de jogo seria perturbado, já que com as repetições a que temos acesso quase em tempo real as decisões podem ser tomadas em segundos.

À semelhança do que aconteceu esta temporada na Liga Europa, onde foi feita a experiência com a introdução dos árbitros de baliza, também nesta competição poderia ser testado o vídeo-árbitro, de forma a analisar a reacção de todos os envolvidos. Acredito que ninguém nasce com o dom da verdade e que por isso se devem testar algumas opções antes de se avançar para algo em definitivo.

O autismo da milionária FIFA tem estado encapotado pelo argumento da preservação da essência do desporto rei, mas o que dizer aos irlandeses da mão de Henry? Quem paga o investimento feito pela Federação em Giovanni Trapattoni, as horas passadas em estágio e os prémios que se perdem pela ausência do Mundial? Quem explica aos irlandeses que não podem apoiar sua selecção, o grande motivo de orgulho de uma nação a quem falta uma liga de renome?

Haveria inúmeros exemplos para demonstrar situações em que a verdade desportiva foi adulterada, mas o essencial não é distribuir culpas, é preciso isso sim, encontrar soluções capazes de credibilizar um desporto que emociona milhões e que não pode estar dependente dos Jorge Larrionda e dos Koman Coulibaly deste mundo. Eles, tal como nós, são intervenientes do jogo e não têm o direito de nos privar do espectáculo que os artistas estão dispostos a dar.

Eurosport - Gonçalo Moreira e Pedro Nascimento

“Pesquisa Programação” Ex. : Futebol, Champions League, Eurogoals…

 

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