Futebol
24/11/2009 - 15:55“Tenho vergonha de Domenech!”

Olivier Bonamici não gostou da atitude do seleccionador francês após a mão de Henry no jogo contra a Irlanda.
Há uma semana que ando a ler e ouvir tudo o que se diz acerca da mão de Thierry Henry contra a Irlanda.
Quando acontece um evento que abala o planeta futebolístico, gosto de ouvir todas as opiniões e averiguar todos os factos antes de me pronunciar.

Ora aqui os factos são simples. Henry fez "batota" e por causa disso a França apurou-se para o Mundial.
No dia seguinte ao jogo, confesso que acordei com ressaca. Agora já sei porquê. Não é por causa da mão de Thierry Henry. No lugar dele, muitos jogadores teriam feito o mesmo, tenho a certeza absoluta disso. Aliás, poucos jogadores de futebol vieram chamar publicamente Henry de batoteiro. Também não é por causa do empurrão indirecto da FIFA porque nunca fui adepto da teoria do complot. Sei que Platini em Portugal ou em Espanha não tem muitos amigos mas não imagino Platini pegar o seu telefone, ligar o árbitro sueco e pedir: “Olha, faz favor, se houver uma mão da França, pode fechar os olhos? Merci!“
Nunca tive paciência para as teorias do complot, e não só no futebol. Aliás, se por trás de cada jogo, houvesse um complot da FIFA, quem é que do ponto de vista económico teria dado mais lucros no Mundial 2010, a Rússia ou a Eslovénia ?
Por isso, também, discordo de Liam Brady quando o representante da Irlanda diz o seguinte: "Com o sorteio, eles (a FIFA) queriam que Portugal e França seguissem adiante e foi isso que aconteceu". Portanto, não foi por causa de Platini nem do Henry que eu tive uma ressaca.

Foi sim por causa da ATITUDE da equipa francesa e dos seus dirigentes. Ou seja, por causa de tudo o que aconteceu depois da mão. Primeiro, Raymond Domenech, que após este erro de arbitragem que afastou a Irlanda nem fez um pedido de desculpas. Este homem dá-me mesmo vómitos! Em directo à rádio RTL pouco tempo depois do jogo, Domenech disse ao comentador Bixente Lizarazu (ex-jogador) "Agora não quero falar disto ( da mão), quero festejar, festejar...”
Ainda bem que Lizarazu tem categoria e respondeu-lhe em directo: "Eu não vou festejar, até por respeito em relação aos irlandeses".
Mas a verdadeira razão da minha ressaca aconteceu nas horas que se seguiram ao apuramento da selecção francesa. Volto para casa e ligo a Rádio Monte Carlo.
Num fórum em directo, um ouvinte critica o que ele chama a auto-flagelação francesa.

"Henry só cometeu um erro na vida enquanto Cristiano Ronaldo faz batota em cada jogo. Alias, quando joga a selecção portuguesa ou uma equipa portuguesa, não há um jogo em que não haja uma simulação".
What? Estou a sonhar com certeza!!! Fico à espera da resposta do jornalista que lhe responde da melhor maneira, a gozar com a própria estupidez do ouvinte: "Sim claro, os portugueses são mergulhadores, os italianos são ladrões, os alemães roubam crianças e os romenos roubam galinhas".
"A partir de agora", disse o meu colega, "se um ouvinte ligar e tratar Cristiano Ronaldo de batoteiro, de mergulhador, desligo-lhe o telefone na cara".
Tem toda a razão o meu colega, quem são os franceses para darem constantemente lições de moral aos outros?
Num espaço de dois anos, os franceses tiveram uma cabeçada de Zidane e a mão de Henry.
Uma equipa de futebol que tem duas atitudes dessas tem apenas o direito e o dever de ficar mais humilde. Por causa de Domenech e da sua falta de classe que se espalhou na sua equipa, o hino francês está a ser assobiado em todo o lado, não deve ser por acaso! Por isso, no sábado ganhou a França mas perdeu a arrogância francesa.

No entanto, queria deixar aqui uma nota. Em França, muitos jornalistas fizeram um trabalho exemplar e corajoso acerca da mão de Henry. Não cederam ao patriotismo barato. Referi dois deles mas falta-me acrescentar o meu colega da rádio RTL que em horário nobre, na segunda-feira, entrevistou o vice-presidente da Federação Francesa, colocando três perguntas: Henry fez batota, a Federação vai castigá-lo? A França apurou-se com uma batota, a Federação assume? E, finalmente, a melhor de todas: Uma vez que o desporto promove valores morais, como conciliar isto com a batota de Henry?
Felizmente, o jogo da selecção portuguesa não me deu tanta ressaca! Já tinha tido a dose da semana. Aliás, em relação a esta equipa, transcrevo aqui a conversa que tive com dois dos meus colegas há cerca de quatro meses. Sempre defendi, mesmo quando Portugal estava à beira do abismo, que a selecção portuguesa tinha uma grande equipa e que Portugal se tinha tornado uma grande nação de futebol. Os meus colegas riram-se na minha cara: “O quê? Uma grande equipa? Como a Argentina ou a Holanda ou a Inglaterra?“.

Sim , exactamente. Eu nunca disse que a selecção de Portugal tinha o palmarés destes três países, eu disse que a selecção portuguesa se tinha tornado numa grande equipa nos últimos 10 anos. O que é que ganharam Argentina, Inglaterra e Holanda nos últimos anos? Nada! É verdade que Portugal também não mas qual é o país que se pode gabar nos últimos 10 anos de ter jogado uma final do Europeu (2000), uma meia-final do Europeu ( 2000) e uma meia-final de um Mundial (2006)? Poucos. Aliás, o pior resultado com Scolari foi ficar nos quartos de final do último Europeu. O pior resultado!!! Entretanto o brasileiro saiu e entrou Carlos Queiroz. Sempre tive confiança nele, no seu trabalho e porque falávamos há pouco no caso de Domenech, acho que ele tem algo que não tem o seu homólogo francês, a classe!
Resta saber o que irá fazer Queiroz no Mundial. Sem um grande Cristiano Ronaldo, tenho a certeza que Portugal não irá muito longe. A equipa portuguesa sem ele, venceu duas vezes a Bósnia, mas sem Ronaldo conseguirá fazer o mesmo quando vier a defrontar a Espanha ou a Inglaterra? Acho que não. Por isso, é urgente recuperar Cristiano Ronaldo para quem sabe acertar algumas contas com o meu grande amigo Raymond!!!

Olivier Bonamici, comentador Eurosport










