Eurosport
25/05/2009 - 18:01A parabólica chamava-se Eurosport

Quando eu andava no liceu, “televisão” significava um aparelho que tinha quatro botões, um para cada canal português. Um belo dia, tinha eu quinze anos, apareceu, no topo do prédio que formava a primeira esquina do bairro, uma “panela” esquisita: branca, redonda, apontada para o céu.
As antenas parabólicas tinham chegado, finalmente. Para mim e para os meus amigos, o Eurosport tinha chegado. Nunca lhe chamámos “parabólica”. Sempre que falávamos no assunto, ele era posto nos termos “no meu bairro já há Eurosport”. Bom... ter, ter, eu não tinha. Um vizinho inteligente do prédio lá da ponta montou a parabólica no terraço, mas eu morava a quatro prédios de distância e no meu terraço não havia nada para além de duas telhas rotas e um ninho de pássaros carecas. Devo ter perdido umas duas semanas a tentar convencer o meu pai a comprar uma parabólica e a fazer sondagens espontâneas aos vizinhos sobre a hipótese de se juntar dinheiro entre todos para se adquirir um prato comum. Pela expressão dos vizinhos percebi que a maior parte estava informada o suficiente para perceber que aquilo ainda era caro.
Devo ter imaginado cinquenta formas diferentes de subir ao topo do prédio da ponta. E outras cinquenta de como fazer passar um cabo desde a antena parabólica à parede do meu quarto. Não percebia patavina de antenas, cabos e electrónicas, mas alguma coisa haveria de dar. A ideia era fora-da-lei, sim, mas demasiado tentadora: os vizinhos tinham Eurosport e eu não, portanto, eu tinha que arranjar maneira de ter também.
Felizmente fracassei em todos os intentos de “roubar” sinal aos vizinhos e para minha suprema satisfação foi o sinal que veio oferecer-se a mim. Foi a televisão da cozinha que me trouxe a epifania, na forma de um som estranho que aparecia num canal não sintonizado: “rinhon, rinhon, rinhon” em língua inglesa. Era o sintoma claro de que a parabólica do prédio da ponta me estava a tentar oferecer o Eurosport. Vasculhei a antena interior mais comprida que encontrei, apontei-a para a janela e dei três voltas à sintonia fina da TV para descobrir um pedaço de céu em formato hertziano: um rectângulo avermelhado e duas silhuetas a correr de um lado para o outro. O Eurosport estava a transmitir o torneio de Roland Garros e eu estava a vê-lo na minha pequena televisão. Distorcido, com pontinhos brancos, mas ali estava o Eurosport. Fui a correr à escola – que felizmente estava a dois minutos de casa – contar aos amigos e trouxe um deles comigo. É bem capaz de ter sido o dia mais feliz da vida daquele aparelho de TV, porque esteve ligado até à noite e teve a função de sintonia activa mais tempo do que em toda a existência anterior. Nos dias seguintes vimos Ténis até cansar, nuns dias com uma nitidez tão cristalina que parecia que a parabólica estava montada na minha janela, noutros com uma chuva de pontinhos brancos, o que acontecia sempre que estava mau tempo. Decorámos os “spots” de publicidade, quantas estrelinhas tinha o símbolo do Eurosport e o fantástico “Internationaux de France” numa voz grave e melodiosa, que era o “jingle” que anunciava as entradas e saídas dos directos de Roland Garros. Passámos dias a repetir essa frase, com a mesma entoação que ouvíamos na televisão. Marcávamos na agenda quando havia transmissões de Futebol, vibrávamos com o “Eurogoals”. Passámos a usar o Eurosport como desculpa para tudo: “estudar em tua casa? Porquê? – Porque eu tenho`' Eurosport”. E já éramos aos grupos de cinco e seis em frente à televisão. Tenho memórias profundamente saborosas de ver Fórmula 1 comentada em língua inglesa, por um rapaz chamado Allard Kalff (do qual tinha uma vaga lembrança de ter visto correr num mesmo Masters de Fórmula 3 que foi ganho pelo Pedro Lamy) e por um antigo piloto chamado John Watson. De certo modo, posso dizer que foi o inglês limpo e gramaticamente correcto do John Watson que me ajudou a desenvolver o conhecimento do idioma. Não tinha legendas nem tradução directa, eu tinha mesmo que perceber o que ele dizia. E há coisas ditas por ele que nunca me vão sair da memória, nomeadamente o comentário a um momento “quente” (apenas um dos vários) entre o Michael Schumacher e o Heinz-Harald Frentzen que deixou este último furioso com o primeiro. Quando deu a repetição vista da câmara “on-board” do carro de Frentzen, mostrando a sua ira perante a manobra do adversário, John Watson exclamou: “oh! He gave him the finger'! Unbelieavable!”
Também me lembro, anos mais tarde, de ter tentado liderar a primeira comissão oficial de protesto contra o facto de terem tirado as emissões de Fórmula 1 do Eurosport. Liguei para França, para uma filha de emigrantes que trabalhava nos escritórios do Eurosport: “Adelaide, é verdade que vão tirar a F1 do Eurosport? E como é que eu faço para protestar?” Tinha em mente enviar cartas para o Eurosport em todos os idiomas do mundo para mostrar a minha indignação, mas ela demoveu-me: “não depende de nós. A decisão é de quem manda na F1”. Bernie Ecclestone, ganhaste um inimigo.
Do que nunca me vou esquecer foi do dia em que o meu melhor amigo estava ao meu lado a ver o Eurosport, aquele Eurosport ainda fosco e pontilhado de branco, mas ainda assim o melhor Eurosport que havia neste mundo, porque era aquele a que eu tinha acesso. Discutíamos saudavelmente que a Arantxa Sánchez nunca seria melhor que a Steffi Graff, que o Damon Hill não tinha estofo para campeão do mundo de Fórmula 1, que o Jean-Pierre Papin era o melhor avançado do mundo e ia revolucionar o futebol do A.C. Milan... “Um dia vais estar ali tu, a comentar no Eurosport”, disse-me ele.
“Estás louco?”
Não, não estava.










