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07/07/2010 - 14:45 - Updated 07/07/2010 - 14:51

O fim dos baroudeurs?


O fim dos baroudeurs? - CICLISMO
DPPI

De Fausto Coppi a Sylvain Chavanel, conheça o significado de uma das expressões mais antigas do ciclismo. Estarão os baroudeurs à beira da extinção?

O dicionário da língua francesa define a palavra baroudeur da seguinte forma: corajoso, lutador, aventureiro, guerreiro e combativo. Curiosamente, ou talvez não, todos estes adjectivos podem ser aplicados a um grupo muito específico de ciclistas, que etapa após etapa procuram animar as longas horas de transmissão televisiva com que somos brindados. Mas como traduzir esta palavra para português de forma a adaptá-la ao mundo do ciclismo? Talvez o mais adequado seja chamar a estes homens " lebres", à semelhança do que acontece nas provas de meio-fundo e fundo do atletismo, onde atletas sem grandes aspirações em termos de classificação final se atiram para a frente com o objectivo de impôr um ritmo elevado e evitar que se caia na monotonia.

EXPRESSÃO COM ORIGENS BÉLICAS

O fim dos baroudeurs? - CICLISMO

De onde vem esta palavra e quando começou a ser aplicada ao ciclismo? A resposta encontra-se na década de 1920 e terá sido primeiramente utilizada pelas tropas francesas para designar aqueles soldados destemidos (ou loucos, depende da perspectiva) que eram sempre os primeiros a entrar em combate. Mas as origens militares não ficam por aqui, já que se olharmos ao próprio significado da palavra barud percebemos que significa "pó explosivo", isto num contexto de guerra.

A expressão foi mais tarde "importada" para o ciclismo, numa época em que as etapas tinham 300/400 km de distância e eram encaradas pelos homens em fuga como uma verdadeira guerra contra o pelotão. As longas distâncias originavam ataques que poderiam durar um dia inteiro e resultar em vitórias espectaculares... ou falhanços com a meta a à vista.

Nos anos 50 ficaram famosos os ataques de Fausto Coppi, que levaram Il Campionissimo a vencer o Tour em duas ocasiões com mais de 25 minutos de vantagem. "Quando o Fausto ganhava e queríamos saber a diferença de tempo para o segundo, não precisamos de um relógio suíço. O sino da Igreja servia para contar o tempo. Paris-Roubaix? Milão-San Remo? Lombardia? Estamos a falar entre 10 minutos e um quarto de hora”, recorda o ciclista francês Raphaël Géminiani, contemporâneo de Coppi, numa entrevista à Cycle Sport, em 1996.

ESPÉCIE EM VIAS DE EXTINÇÃO

Um dos últimos grandes baroudeurs do ciclismo moderno foi Jacky Durand, ciclista que se retirou em 2004 e que actualmente é um dos especialistas do Eurosport para o Tour de France.

O fim dos baroudeurs? - CICLISMO

Durand foi um ciclista relativamente bem sucedido e até chegou a andar de amarelo no Tour, quando quase "por engano" ganhou o Prólogo num dia de chuva, mas no qual o francês foi um dos poucos a apanhar estrada seca logo no início. Apesar de alguns feitos consideráveis, como o facto de ter vencido o Tour de Flandres em 1992, depois de andar fugido 237 km, Durand reconhece que ainda o hoje o param na rua por outras razões: "Sou mais conhecido pelas minhas escapadas inconsequentes no Tour do que pelas minhas vitórias na Flandres e no Paris-Tours", conta o vencedor do Prémio da Combatividade da Volta a França em 1998 e 1999.

Hoje em dia há alguns bons exemplos de coragem no pelotão e mesmo na actual edição do Tour encontramos uma história que faria Coppi sorrir. Sylvain Chavanel conseguiu fazer 190 km na frente da corrida durante a 1ª etapa do Tour, entre Bruxelas e Spa, primeiro acompanhado e nos últimos 20 km isolado na liderança. Se à performance incrível somarmos o facto de nestas mesmas estradas das Ardenas o francês ter fracturado o crânio em Abril passado, a história assume o dramatismo que caracteriza as lendas e seguramente esta terá sido uma jornada para lembrar daqui a muitos anos e um prémio merecido para um ciclista que em 2008 já tinha ganho o Super Prémio da Combatividade no Tour.

Actualmente a organização da Volta a França premeia os ciclistas pela sua combatividade de várias formas. No final de cada etapa (excepto nos contra-relógios) um painel de especialistas decide quem foi o atletas mais atacante e atribui-lhe um prémio monetário de 2000 Euros, além de o distinguir no dia seguinte com um dorsal que deixa de ter o número marcado a preto e branco, como todo o pelotão, passando a ter os números brancos num fundo vermelho. Nofinal da Volta é ainda atribuído um Super Prémio da Combatividade no valor de 20 mil euros ao ciclista com a mentalidade mais atacante.

ISD, VACANSOLEIL E SKIL-SHIMANO: OS BRAVOS DO PELOTÃO

2010 tem sido um ano nefasto para as "pequenas" equipas que ao longo da temporada são as grandes responsáveis por animar etapas que de outra forma seriam enfadonhas. Mas estarão as formações mais modesta a ser apanhadas por uma nova lógica no ciclismo mundial? A resposta é sim!

O fim dos baroudeurs? - CICLISMO

Basta olhar para as grandes Voltas para perceber o afastamento a que foram condenadas este tipo de equipas. A ISD-Neri, por exemplo, não coube no Giro apesar de este ano contar com três ciclistas no top 10 dos homens que levam mais quilómetros em fuga (Diego Caccia, Simon Clarke e Dmytro Gabrovskyy).

No Tour então nem se fala, já que equipas como a Skil-Shimano, que no ano passado foi destaque na Volta a França não só pelas fugas, mas acima de tudo porque na sua lista final incluiu um ciclista japonês, o que representa um novo e importante mercado para a ASO (empresa que organiza o Tour), nem assim tiveram espaço na lista final. O mesmo se passou com a Vacansoleil, onde estão os irmãos Feillu, Brice e Romain, sendo que o mais novo foi a grande revelação do Tour 2009, ao vencer na chegada ao alto de Arcallis, em Andorra. A formação holandesa reforçou-se consideravelmente para este ano e ao mesmo tempo foi uma das que mais investiu em publicidade estática nas provas organizadas pela ASO. O resultado? Fora do Tour!

Eurosport - Gonçalo Moreira
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