Ciclismo
07/03/2010 - 03:18"Havia guerra na Astana" - Bernard Hinault

Corrosivo, como sempre, Bernard Hinault fala do regresso de Armstrong, da guerra do americano com Contador e não esquece os fracassos franceses.
Ainda a época não vai a meio e já Bernard Hinault veio a público tecer algumas considerações sobre o que 2010 nos reserva.
“O Texugo”, apelido atribuído ainda quando estava no activo, aproveitou uma entrevista concedida à revista Procycling para fazer a antevisão da actual temporada, na qual o prato forte volta a ser o duelo Contador-Armstrong: “Ao contrário do ano passado, ambos vão estar em equipas diferentes, não vão ter os mesmos treinadores, nem o mesmo director desportivo. Na época anterior tinham o mesmo tipo a dar-lhes ordens, o que complica as coisas. Havia uma guerra a decorrer no seio da equipa, disso não há a mínima dúvida”, esclarece Hinault.
Vencedor do Tour em cinco ocasiões e das três grandes Voltas mais do que uma vez (é ainda hoje o único atleta a conseguir tal feito), Bernard Hinault não acredita na capacidade Lance Armstrong para derrotar o super favorito espanhol: “Este ano o Contador vai estar ligeiramente mais velho, por isso espera-se que esteja mais forte, enquanto o contrário vai acontecer com o Armstrong. Vai ter que treinar muito e ser inteligente na forma de pedalar, mas numa batalha de força física, não o vejo capaz de derrotar o Contador”.

Crítico feroz do texano, o francês foi um dos apoiantes de Alberto Contador durante o último Tour, recorde-se que Hinault disse na altura à Reuters que “se fosse Contador, atacava o Armstrong na subida para Arcallis (primeira grande etapa de montanha do Tour 2009) para lhe mostrar quem manda”.
Para esta época as coisas não mudaram e “O Texugo” continua a acreditar que apesar do regresso em grande de Lance Armstrong, 3º no Tour aos 37 anos depois de dois anos sem competir, é preciso pôr as coisas em perspectiva: “Se ele não tivesse ficado em 3º no Tour teria sido um sucesso, um fracasso ou um êxito relativo? Como se julga isso? Precisamos perguntar-nos porque é que ele quis voltar tendo esta idade. Talvez se quisesse divertir, tal como eu fiz quando disputei o meu último Tour. Mas ele tem pela frente jovens ciclistas e o Contador mostrou-lhe uma ou duas coisas no ano passado”, conclui Hinault.
CRÍTICAS AOS FRANCESES... MAIS UMA VEZ
Fielo ao seu estilo agressivo e de resposta pronta, Bernard Hinault provocou uma convulsão no ciclismo francês quando no ano passado acusou os ciclistas do deu país de não serem competitivos e os treinadores de não puxarem pelos atletas.
Alguns meses volvidos, o homem que um dia disse que “enquanto respirar, ataco”, voltou a não poupar críticas aos seus compatriotas: “Nada mudou. Quando o Laurent Jalabert assumiu o lugar de seleccionador nacional e deu aos ciclistas um plano de treino que incluía etapas de 250 km – a mesma distância que nos Mundiais de estrada – eles disseram-lhe que nunca tinha pedalado tanto em treinos anteriores. Isso não é normal! As principais clássicas são superiores a 250 km de distância. Se olharmos para as grandes provas, os franceses estão na luta aos 150 km, aos 180 km começam as dificuldades e depois dos 200 km desaparecem”.
Outra das razões apontadas para o sub-rendimento gaulês nas maiores provas é um certo complexo de inferioridade dos seus atletas, teoria sobre a qual Hinault nem quer ouvir falar: “Temos bons juniores e bons sub-23, que depois desaparecem. Chega da conversa de que os outros estão dopados e eles não. Talvez o sistema de pagamento seja diferente nas equipas estrangeiras. Parece-me que há maiores incentivos lá fora. Também há demasiadas equipas em França, é a velha questão da oferta e da procura – quando uma equipa ameaça um ciclista de corte salarial, há sempre outra equipa francesa que o recebe de braços abertos”.
Sem papas na língua, Hinault mostra que está em forma nesta pré-temporada e promete estar ainda melhor no Tour.










