Atletismo
23/08/2009 - 21:36Diário de Marco Fortes

Fechou o Mundial. Nestes dez dias ficou provado que o atletismo é o melhor desporto e o maior espectáculo do mundo.
Dia 9 - Neste último dia dos Mundiais de Atletismo começo com as portuguesas. O quarto lugar de Naide Gomes é daquelas coisas que acontecem: está tudo bem, mas a atleta não consegue superar-se. O salto não surge. Foi pena. Quanto à performance da Marisa Barros na Maratona, chega uma palavra: imponente! O tempo que fez ter-lhe-ia dado medalha olímpica em Pequim. Claro que aqui é sempre preciso descontar as condições em que a prova tem lugar, tanto quanto ao perfil do percurso como no capítulo meteorológico, mas a Marisa esteve a grande nível. Sem dúvida um dos melhores resultados da nossa selecção em Berlim.
Quanto às estafetas 4x400m pouco há a dizer. Ganhou quem se esperava, confirmando aquilo que para mim é um dos pontos que merece referência num balanço a estes Mundiais – foram poucas as corridas que cativaram o público para lá do “normal”, sendo que a normalidade já é uma referência de topo! O destaque vai, claro, para os feitos de Usain Bolt e para as competições técnicas, pese embora hoje tivéssemos direito a uma final dos 5000m verdadeiramente de antologia. Quem vai esquecer aquele final? Impressionante o querer de Bekele, a permitir-lhe conter o ataque do americano em cima da linha. O momento do dia!
Não posso deixar de fazer referência aos 1500 m femininos. A decisão dos juízes em desqualificar a atleta espanhola parece-me justa. Segundo me disseram, não se pode forçar a passagem por dentro. No meio disto tudo, o que deixa pena é que tanto Rodriguez como Burka trabalharam e estavam em forma. Qualquer delas podia ter ido até ao final a discutir o triunfo ou, pelo menos, um lugar no pódio. Acabou mal para ambas!
A fechar, quero agradecer a oportunidade que o tv.eurosport.pt me ofereceu de ir comentando diariamente estes Mundiais de Berlim. Quem foi acompanhando a edição 2009 dos Campeonatos fica com a certeza que o atletismo é o melhor desporto e o maior espectáculo do mundo. Conseguir “prender” todos os dias em sessões de 4 horas (ou mais) milhões de espectadores, oferecendo-lhes competição, espectáculo, drama e emoções, alegrias e tristezas, não tem par. Só tenho pena que o desporto que pratico com dedicação, com verdadeiro amor, não tenha mais pessoas a segui-lo no meu país.
Dia 8 - As estafetas 4x100 foram dominadas pelos jamaicanos. Mérito? Total. Surpresa? Nenhuma. O grande espanto, a grande euforia existente em torno de Usain Bolt começa a passar, porque o que espantaria neste momento seria, naturalmente, que ele não ficasse com a terceira medalha de ouro. Daí que as duas vitórias da Jamaica, no feminino e no masculino, tenham sido a confirmação daquilo que todos esperavam, mas sem emoção, sem grande euforia. Apenas a confirmação de 'mais uma'.
Éimportante destacar o recorde do Martelo feminino, quebrado pela polaca Anita Wlodarczyk. Sinceramente, estava a espera que caísse o recorde, mas acreditava que fosse a alemã Betty Heidler a fazÊ-lo, depois do que tinha demonstrado durante a qualificação. Seja como for, é importante destacar que as provas de lançamento têm sido excelentes e o grande pilar dos resultados colectivos da Alemanha durante estes mundiais.
Finalmente, e digno de enorme registo, o feito dos maratonistas portugueses, que fizeram uma prova notável, sempre em conjunto, com enorme entreajuda, para um resultado colectivo que é fantástico. Ficaram a somente dois minutos do terceiro lugar por equipas. Portugal tem uma enorme tradição nos fundistas e este resultado excelente prova-o. Gostei da enorme coragem demonstrada pela Sara Moreira nos 5000m. Estava num grupo fortíssimo, mas bateu-se com todas as armas que tinha,até ao momento em que, de facto, era impossível acompanhar as mais fortes quenianas e etíopes. Um 10º lugar e, sobretudo, uma exibição que premeia a sua coragem.
Estão quase no final estes mundiais. Ficamos a aguardar com ansiedade a prova da Naide Gomes este Domingo, porque ela não tem nada a provar a ninguém, está entre as melhores do mundo, e apenas desejamos que ela seja capaz de converter a sua categoria com um grande resultado. E que possamos ouvir o Hino Nacional este Domingo à noite.
Dia 7 - Uma vez mais a Naide Gomes provou que é uma grande saltadora e que está em condições para vencer, cumprindo a sua missão ao apurar-se para a final do salto em comprimento, onde eu, tal como todos os portugueses, espero uma medalha, embora saiba que vai ser uma final dura porque há adversárias de grande nível.
Na estafeta 4x100 metros as coisas não correram como estava planeado. Havia grandes expectativas no seio da equipa em relação a um bom resultado, mas já se sabe que esta é uma prova muito técnica e que não é com pouco tempo de preparação que se pode vir competir com os melhores do mundo. É preciso treinar em conjunto durante anos para se chegar a um nível capaz de estar numa final.
A sessão da tarde também teve condições pouco favoráveis, já que a chuva apareceu em força. Sempre que um atleta vai para a pista espera as melhores condições possíveis e é verdade que situações como a de ontem influenciam as prestações. Claro que há sempre atletas que se adaptam melhor e que até preferem chuva intensa para daí poderem retirar alguma vantagem, como é o meu caso.
Apesar de tudo houve grandes provas, especialmente na final do disco feminina, onde ganhou a autraliana Dani Samuels, um nome que me é relativamente desconhecido e eu estou bem informado sobre o panorama mundial do disco. Esse resultado é por isso uma surpresa. A encerrar a jornada tivemos a final do salto em altura, um evento que teve uma qualidade competitiva e técnica incrível.
Dia 6 - É inevitável começar hoje por um homem que cada vez mais tem provado que não corre, voa baixinho. O estádio quase que vinha abaixo com a prova dos 200 metros, especialmente com o Usain Bolt, foi incrível ver até que ponto vai a força física de um atleta.
Mas a tarde ficou marcada também pela final do salto em altura onde havia duas atletas com contas por ajustar desde o meeting de Berlim, em Junho passado, mas desta vez a Blanka Vlasic conseguiu vir a casa da Ariane Friedrich derrotá-la. Nesta prova uma nota para o comportamento muito evoluído do público, que provou ser conhecedor do desporto, fazendo silêncio quando as atletas pediam, porque é preciso compreender que em alguns momentos o nível de concentração é de tal maneira elevado que o silêncio é fundamental.
O dia de hoje viu a Vânia Silva ficar de fora da final do disco, algo que não é surpreendente devido ao nível que esta prova apresenta no sector feminino. A Vânia estava motivada e sentiu no final que escapou-lhe por entre os dedos a oportunidade de fazer uma grande marca, mas são coisas que acontecem numa competição desta dimensão.
Amanhã é um dia muito importante para Portugal. Temos logo de manhã os marchadores António Pereira e Augusto Cardoso nos 50 km, que estão com o espiríto animado e satisfeitos pelo facto das condições atmosféricas terem melhorado porque a prova é longa e o clima pode desestabilizar.
Na sessão da tarde entra em competição a Naide Gomes, uma atleta que não tem que provar nada a ninguém e que é uma das melhores do mundo do salto em comprimento. Acredito que ela se vai apurar sem dificuldades e afastar de uma vez por todas os fantasmas de Pequim.
Mas há um outro momento para o qual chamo a atenção, já que na estafeta 4x100 metros teremos a selecção nacional à procura de um lugar na final, algo que seria histórico. Para os mais jovens é uma responsabilidade competir sob a “supervisão” de um atleta como o Francis Obikwelu, mas penso que o Arnaldo Abrantes, que recuperou do problema que o molestou, constitui também um pilar de confiança para toda a equipa, especialmente para os elementos menos acostumados a ambientes como este. Relembro que ele abdicou de correr os 200 metros para não colocar em risco a participação na estafeta, o que revela grande confiança nos companheiros.
Dia 5 - Estes Mundiais têm sido marcados pelo excelente nível nas provas do lançamento. O peso foi fantástico, assim como o dardo, especialmente o feminino, e hoje tivemos uma incrível competição no disco masculino.
Sei de fonte segura que o Harding se preparou muito, procurou ficar a treinar na Alemanha, ausentando-se do país apenas para alguns eventos importantes, mas acima de tudo trabalhou muito e com grande motivação para tentar chegar ao ouro. Ainda assim a vitória dele não deixa de ser surpreendente.
Na pista estava reservado mais um dos grandes momentos do dia. A final dos 800 metros deixou toda a gente de boca aberta e gerou comentários de público e atletas porque a mesma atleta que hoje deixou as adversárias a grande distância com uma marca de 1:55.45, há nove meses corria 9 segundos mais lenta.
Em termos da equipa nacional hoje foi um dia muito positivo com o apuramento da Sara Moreira para a final dos 5000 metros. Tive a oportunidade de falar com ela, que me assegurou que tinha sido mais fácil do que esperava e que tinha conseguido seguir com as da frente sem se desgatar muito.
Destaque ainda para a cerimónia de entrega das medalhas no triplo salto, que viu o Nelson Évora de prata ao peito, o que dá uma motivação extra a uma equipa que já estava bastante positiva.
Dia 4 – Da jornada de hoje o destaque tem que ir para mais uma grande prestação do Nelson Évora, que voltou a provar ser um dos melhores a este nível e um dos grandes do triplo salto mundial. Uma medalha de prata depois do ouro em Pequim e do título mundial em Osaca é um feito notável. Hoje não foi o mais forte, porque o Phillips Idowu esteve muito bem, mas é um resultado moralizador para a delegação portuguesa.
Os dias vão passando e os atletas vão entrando em competição um após o outro e aqueles que, como eu, já cumpriram a sua missão, têm agora procurado cumprir o seu papel no apoio aos colegas.
Amanhã será dia de estar na bancada a puxar pelas meninas dos 5000 metros com as quais me tenho cruzado por diversas vezes e posso garantir que estão bastante motivadas, embora se saiba que nas provas longas existe supremacia africana.
O clima no hotel em que está a delegação portuguesa é óptimo, estes eventos internacionais são sempre uma oportunidade para trocar experiências e até conhecer os nossos adversários, o que nos possibilita até evoluir no aspecto desportivo.
De saída queria deixar uma palavra de apoio ao Arnaldo Abrantes, que hoje abdicou da participação nas eliminatórias dos 200 metros e, no fundo, de toda a preparação ao longo da época, para se poupar para a estafeta e assim poder ajudar os seus companheiros. Grande coragem!
Dia 3 - É o escândalo dos campeonatos: Elena Isinbaeva foi eliminada do concurso do salto à vara sem um único salto válido. Mais uma vez vi um estádio incrédulo, ontem pelo incrível Bolt e hoje devido ao falhanço total da russa.
Foi incrível ver como uma grande campeã sai assim de cena! É verdade que ela passou por uma mudança de treinador e nestes Mundiais quis começar com alturas muito elevadas, com que as outras acabam...acontece.
Atenção ao dia de amanhã que pode ser histórico para o atletismo português e para o triplo salto, porque com a confiança que o Nelson Évora demonstrou na qualificação podemos estar a caminho de uma marca acima dos 18 metros. Mas convém não esquecer que ele tem adversários muito cotados.
Hoje tivemos em competição a Jessica Augusto que esteve em bom nível na final dos 3000 obstáculos, por outro lado foi pena o Rui Silva não ter conseguido a passagem à final dos 1500, mas uma nota para ele, que consegue estar nos Mundiais entre os melhores depois de várias lesões. O Rui Pedro Silva também esteve inserido numa prova com atletas de grande nível e acabou por cumprir a sua missão.
O dia de hoje marcou também o meu regresso aos treinos, ao que parece a época ainda não acabou. O cansaço já é muito nesta altura, mas por outro lado é bom continuar a receber convites porque é sinal de que os meus resultados estão a ser reconhecidos
Dia 2 - Uau!!!
Indescritíveis as sensações vividas durante a final dos 100 metros! Ainda estou em estado de choque com este recorde do mundo registado pelo Usain Bolt, no estádio só se ouviam os gritos e ruídos do público. Estive na pista a ver a prova juntamente com outros lançadores e com o meu treinador e no final todos tinhamos pele de galinha, o Bolt é mesmo do outro mundo.
Mas voltemos ao início do dia, onde aproveitei para descansar depois da longa jornada de ontem. Ao fim da manhã estive com a Sónia Tavares e com o Nelson Évora que hoje entraram em competição, aliás, pude assistir às respectivas provas e ambos estiveram bem: a Sónia fez um bom resultado em ano de estreia nos Mundiais e o Nelson teve uma qualificação fácil depois de um primeiro salto a 17.44 que demonstra o seu estatuto.
Aproveitei ainda para conversar com o Arnaldo Abrantes, que ontem fez duas corridas muito boas nas eliminatórias dos 100 metros e que ainda vai disputar os 200.
Como já disse, passei a tarde a assistir às provas e é preciso deixar uma nota para o excelente concurso no lançamento do peso feminino. Já ontem nos homens a final tinha sido incrível, mas hoje não ficou nada atrás e o público vibrou com as grandes marcas que as atletas registaram.
Dia 1 - Tive alguma dificuldade a entrar na prova, o início é sempre difícil numa competição destas e toda a pressão que implica. Mas não fui o único, já que entre os favoritos se sentia o peso da responsabilidade, por exemplo, senti os americanos pouco à vontade, atletas como o Hoffa e o Cantwell estavam confortáveis na câmara de chamada, mas quando entraram no estádio sentiram a imponência da ocasião.
Tive uma entrada lenta e o primeiro lançamento saiu falhado, o que aumentou a pressão para o segundo, porque sabia que era decisivo. Senti-me um pouco nervoso e acabei por registar um nulo a 19 metros, o que de alguma forma me motivou para a última tentativa, onde acabei por obter 19,81.
Tecnicamente não estive tão bem como esperava, termino a competição como 18º melhor do mundo, o que para um estreante é sempre muito bom e tudo isto acaba por ser um prémio para a época excelente que tenho vindo a fazer.
Há algo que gostaria de destacar e que passa pelo elevado nível competitivo, já que o 6º classificado acabou com 20.98, provando que houve marcas de grande qualidade.
POSITIVO E NEGATIVO
Após a final posso confessar que fiquei algo desapontado com a prestação do Reese Hoffa porque é um dos atletas que tenho como modelo. Por outro lado devo confessar que o Ralf Bartels me surpreendeu pela positiva, porque é um lançador que já cá anda há muito tempo e que soube esperar pela altura certa.
O Cantwell esteve incrível ao conseguir uma marca acima dos 22 metros, mas devo confessar que a minha aposta era o polaco Majewski.
Gostava ainda de deixar uma palavra sobre o ambiente deste primeiro dia. É verdade que desde Pequim nada me impressiona, mas devo confessar que este estádio é muito bonito, tem uma sonorização fantástica e apesar de logo pela manhã as bancadas não estarem cheias a acústica era impressionante.










