Esqui alpino
04/01/2010 - 13:08“Não morrer sem tentar fazer a Streif”

Uma das mais famosas estâncias de ski mundiais acolhe o mais duro e mediático Downhill do Mundo. Perceba a mística da Streif neste texto de João Paulo Freitas.
É em pleno Tirol Austríaco , que se realiza desde 1931, a corrida de “Hahnenkamm”. O mais duro e prestigiado Downhill do Mundo, tem como cenário a vertiginosa pista “Streif” . A vila mediaval de Kitzbühel , orgulhosa anfitriã desta fantástica festa da competição alpina, tornou– se desde há muitos anos a esta parte, uma das mais famosas estâncias de ski mundiais, integrando com toda a justiça o top 10 dos resorts europeus de Inverno. Para além do charme característico de uma vila de Chalets, das condições naturais do terreno, e do crescimento controlado da capacidade hoteleira instalada, Kitzbühel conta com algo de único entre as suas congéneres . - A “ Streif piste”
Foi na verdade, a prova que se realiza nesta pista, que tornou lendas, grandes campeões como Franz Klammer, Karl Schranz ou Pirmin Zurbriggen, entre outros. As extraordinárias façanhas por eles aqui realizadas, destinguem-nos de outros grandes nomes do esqui alpino. Klammer por exemplo conta no seu Pamarés com 25 victórias em Downhill na Taça do Mundo, mas é o facto de ser recordista absoluto na Streif ,com 4 victórias ,que o transforma em mito.No passado recente, Stephan Eberharter e Fritz Strobl conseguiram proezas notáveis ao vencerem por mais de uma vez o mais mediático Downhill do Mundo. A victória de Daron Rhalves em 2003, marca a também a história, não só pela raça que o californiano colocou em pista, mas também pelo facto de ter sido a primeira victória de um Estado Unidense na mítica Streif .
Nem o próprio Ingmar Stenmark, o Rei do Slalom e do Slalom Gigante, lhe conseguiu resistir. A 17 de Janeiro de 1981, e sem o seu treinador saber, inscreveu-se no Combinado Alpino ( prova de que ele era inimigo confesso ) para poder entrar na aventura “Streif”. Quando o treinador finalmente o viu de capacete ( à época só usavam capacete os downhillers ) pronto para a partida terá comentado – Estás louco, vais-te matar.. “ . Ao que Stenmark terá respondido – “ Só uma vez..., só uma vez… “.
Conseguiu um 34º lugar que muito o honrou concerteza…
“Não morrer sem tentar fazer a Streif o mais rápido possível” é de facto um desafio de todo o esquiador de recreio, apaixonado como nós.

Quem saí da telecabine de Hahnenkammbahn a 1660 m, e olha alguns metros acima à sua direita, vê o pequeno grande templo, a relíquia, que é a casa de partida desta corrida mítica. São 2 minutos únicos de coragem e loucura, que tornam esta aventura acima dos 100 km/h, a pedra angular desta religião desportiva, vivida e sentida de forma muito especial ,em todo o Tirol Austríaco. Com 3.312 m de comprimento, e graus de inclinação que atingem os 85%, como é o caso da zona de Mausfalle ( ratoeira ), proporcionando verdadeiros “voos” de 40/50 m, esta prova é por si só um espectáculo à parte ( convém lembrar que a inclinação da rampa do elevador da Glória em Lisboa é de 18 graus, e a inclinação das vulgares escadas de nossa casa, se situa entre os 30 /35 graus, só para termos um elemento de comparação ) . A análise do percurso da Streif, é habitualmente marcada pela definição de 5 pontos chave, que treinadores, esquiadores e técnicos de equipamento estudam ao mais ínfimo pormenor.
Com 5 segundos de prova a abordagem ao “muro” de Mausfalle é feita próximo do 100km/h. Aos 460 m de percurso e depois de Mausfalle, eis que chega Steilhang. Uma parede longa a 60 graus de inclinação, com traçado em S , em que é fundamental a frieza e a inteligência na abordagem das 3 portas que a compõem, sempre à velocidade máxima, preparando assim a entrada no Schuss de Brucken ( caminho longo e estreito com pouca pendente em que é fundamental não perder velocidade e evitar as redes de protecção ).

Logo de seguida, Seidlalmsprung. Um salto gigante que deixa para trás outro muro a 55 graus. E estamos somente a meio da prova. Com o aproximar de Hausberg e Hausbergkante ( o dente da casa do monte ), os esquiadores já sentem o estádio e a “gran finale”, e, evidentemente a adrenalina sobe. Não é propriamente a dificuldade dos dois saltos de uma pendente abrupta a 70 graus ( em Hausberg ) que há que ter em conta, mas sim a dificuldade da aterragem. Isto porque, a chegada ao solo se faz em início de curva a mais de 100 km/h, curva essa, que no caso de Hausbergkante , e já à vista do Estádio, é feita em relevé inverso ao sentido da curva. A parte mais alta da pista está no interior da curva e a mais baixa, no exterior da mesma. É aqui que geralmente são tiradas as melhores fotos da prova, e onde se pode ganhar ou perder a corrida.
A mais de meio quilómetro da meta, chega a Compressão de Zielschuss,( descida acentuada e longa a 60 graus, seguida de uma ligeira subida para o salto final ) onde são registadas velocidades superiores a 140 km/h.
Na verdade o pior foi deixado para o fim. No assustador salto final ( Zielsprung ), os esquiadores relatam, que em pleno vôo, e vendo o mar de gente a seus pés, a alegria e a emoção da chegada à linha de meta e do aplauso final, deixa para segundo plano, o medo do salto, o cansaço e a dor, que esta epopeia de 2 minutos provoca, nestes verdadeiros heróis do Esqui Alpino.
Para os esquiadores mais novos e estreantes na prova, a chegada a são e salvo ao final , é uma verdadeira vitória. Os momentos de tensão na casa de partida, sempre que ocorre um acidente, e se ouve o helicóptero de resgate, marcam por vezes a passagem de um rookie a consagrado. São estes momentos, que servem de teste final, na transição dos Downhillers juniores a seniores…

Janeiro é o mês em que, todos os anos, mais de 50.000 pesssoas assistem à lendária Hahnenkhamm Race. (há relatos de assistências superiores a 80.000 pessoas, como em 2001 para a vitória de Herman Maier).
Celebridades de todo o Mundo (Schwarznegger e Nikki Lauda marcam presença assídua ), rumam ao Tirol Austríaco, para um fim-de semana de verdadeiro Festival de Inverno. É tradição alguns pilotos e ex-pilotos de Formula1 , participarem na Charity Cup, uma prova de slalom, cronometrada, cujos prémios revertem a favor de Instituições sociais de benificência.
Fogos de artifício, espectáculos musicais, e a agitação de Restaurantes e Bares fazem deste evento, um segundo fim de ano, três semanas depois do Reveillon.
Durante a prova, dois ecrans gigantes, o som de uma rádio que relata a corrida em directo, e ainda a festa dos Clubes de Fans e as fanfarras em trajes regionais, dominam o ambiente no estádio.
Para além do Downhill, realizam-se também, e no mesmo fim-de-semana, um Super G, um Slalom, e uma prova de Combinado alpino a contar para a Taça do Mundo.
A instabilidade climatérica dos últimos anos, leva a que desde meados dos anos 90, a preparação da pista se faça exclusivamente com neve artificial, acrescendo custos a este já de si dispendioso evento. Cerca de 1000 pessoas trabalham na organização da prova, e os custos totais ascendem a meio milhão de euros. Os Prize Money são também, os mais generosos do Circo Branco, que é a Taça do Mundo de Esqui Alpino.
Aprés-ski
Kitzbühel não pode ser considerada uma estância vocacionada para famílias. Dispõe apesar de tudo, de algumas infra-estructuras e serviços, que podem proporcionar uma estadia mais divertida para as crianças. Destacam-se o “Aquarena” – ( um Parque aquático com várias piscinas interiores, escorregas e cascatas ), e o “Parque Selvagem de Aurach” , onde podem ser visitados, cerca de 200 animais em ambiente natural.
A vida nocturna e as compras, são no entanto o ex-libris de Kitzbühel. Ao final da tarde, as duas principais artérias da vila, a Hinter e a Vorderstrasse, tranformam-se em verdadeiras passerelles de moda e de luxo.

Se por acaso, decidir fazer uma longa “siesta” após o regreso das pistas, não se preocupe, porque não terá problemas em encontrar restaurantes, bares com música ao vivo e discotecas, prontos para o receber madrugada a dentro. O Londoneer é desde há muitos anos uma referência na night life local.Se optar por um dia de passeio, a meio da estadia, não pode perder a oportunidade de conhecer Zell am See, uma pequena e lindíssima vila junto ao lago Zeller, e o glaciar de Kaprun a cerca de 40/50 km de Kitzbühel . Juntas formam o domínio esquiável conhecido como “Europa Sport Region”, com um total de cerca de 130 km de pistas. As mais interessantes são sem dúvida as de Zell am See, quer em variadade quer em grau de dificuldade.
Outra opção é Saalbach – Hinterglemm, a maior estância de ski da região, com cerca de 200 km de pistas, e que dista 70 km de Kitzbühel. Aqui o ambiente é familiar, e a clientela é maioritáriamente austríaca.
Boa viagem e bom ski.










