Esqui alpino
16/10/2009 - 19:12O dono do capacete amarelo

Sabe quem é o dono do capacete amarelo? João Paulo Freitas, comentador Esqui Alpino, diz-lhe.
O “Ritus” facial e corporal na saída para a pista, a escolha de trajectórias impossíveis, a força, e ao mesmo tempo a leveza, em simbiose perfeita entre a capacidade física desconcertante, e a sofisticação e fluidez do gesto técnico, a arrogância temerária com que encarava os perigos das míticas pistas negras da Taça do Mundo, a personalidade provocadora e por vezes intratável perante os adversários, são em suma, a imagem de marca do dono daquele capacete Amarelo.
Em poucos anos, alcançou o estatuto das grandes lendas do Esqui Alpino. De 1998 a 2001 o seu domínio foi de tal forma avassalador , que bateu todos os recordes dos grandes nomes deste nosso desporto branco. Com efeito, Karl Shranz, Marc Girardelli, Pirmin Zurbriggen e Alberto Tomba viram neste curto espaço de tempo, as suas marcas serem absolutamente pulverizadas.
Mas foi, pensamos nós, após o terrível acidente de moto em Agosto de 2001, que o Herminator conseguiu guindar-se ao pedestal intocável do maior Mito do Circo Branco Alpino – Ingemar Stenmark.
Da mesa de cirurgia, onde esteve por um fio a amputação de uma das pernas, até ao incrível regresso vitorioso na Streif de Kitzbuhel em 2003 no Super Gigante ( a “sua” disciplina ), Hermann Maier escreveu talvez as páginas mais importantes da Epopeia que foi a sua vida desportiva. Durante mais de um ano de recuperação solitária, sem a certeza da possibilidade de regresso à competição, Maier mostrou-nos a todos o nível sua determinação, da sua vontade, no fundo a verdadeira “massa” de que era feito .
É que o Herminator nunca teve a imprensa do seu lado, ao contrário de Tomba por exemplo.
Chegámos mesmo a ouvir à época que Hermann Maier estava a destruir a competição , tal era o seu domínio e a forma como com ele lidava.
Por tudo o que conseguiu desde o seu regresso vitorioso em 2003, até à surpreendente conferência de imprensa de Viena a duas semanas do início da Época 2009/10, anunciando em lágrimas, o abandono da competição, é de inteira justiça que o coloquemos, neste momento de despedida, no tal Pedestal Sagrado, ao lado de Stenmark.
E nada foi fácil para Maier, desde muito cedo na sua vida.
Na adolescência é-lhe diagnosticado um grave problema de crescimento ( doença de Osgood Schlattersche ) , o que o impede de prosseguir no programa juvenil da Federação Austríaca de Esqui. Um acidente grave com o seu pai, força-o ainda, a entrar precocemente no mundo do trabalho, nomeadamente na construção civil.
Dos 15 aos 22 anos, concilia a formação como instructor de ski, o trabalho com a sua mãe na escola de ski de Flachau, como professor, e a função de pedreiro durante o verão.
Nunca deixa no entanto de treinar, mas sózinho.
Em 1993 começa a ganhar provas regionais, e é finalmente redescoberto pela Federação Austríaca quando a Taça do Mundo passa pela “sua” Flachau ( 60 kms a sul de Salzburgo ), e ele é convidado para “forerunner”. Faz melhores tempos que muitos dos concorrentes.
Só aos 22 anos ,consegue a Licença de Atleta de Competição da FIS, e em 1995 entra pela primeira vez nos Campeonatos Nacionais Austríacos. Na prova de Gigante, parte com o dorsal 141, e é 18º classificado, numa prova em que caiu por 2 vezes… ( imaginem o estado da pista após 140 esquiadores completarem o percurso ).
No ano seguinte, vence o Título Global da Taça da Europa, e estreia-se finalmente na tão sonhada Taça do Mundo ( a Champions League como nós lhe chamamos ).
Começa assim o percurso lendário do Herói de Flachau, que rapidamente se estreia no lugar mais alto do Podium . Aconteceu a 23 de Fevereiro de 1997. Vence o Super Gigante de Garmisch-Partenkirchen, um mês depois de ter fracturado uma mão no Downhill de Chamonix, nesse, que era o seu ano de estreia na Taça do Mundo.
Termina curiosamente a série notável de vitórias ( 54, que seriam 55, se não tivesse sido desclassificado na vitória de um Gigante em Val d’Isère, por ter excedido o tempo limite de reconhecimento do traçado ) na Champions, com uma vitória também em… Super G ! Em Novembro do ano passado em Lake Louise no Canadá. Recorde-se que Maier é, de alguns anos a esta parte, o detentor absoluto do record de vitórias em Super G ( 24 ), ultrapassando por larga margem, o ex-recordista Pirmin Zurbriggen ( Sui ).
E assim se encerra um capítulo, dos mais intensos e brilhantes do Esqui Alpino Mundial.
Para um apaixonado, como eu, do Esqui Alpino de competição, é hoje mais do que nunca, um sonho definitivamente a realizar, tirar uma foto junto à estátua de Hermann Maier em Flachau, e passear descontraídamente, pela rua e pela praça com o seu nome…
Obrigado por tudo. Felicidades Hermann Maier … !
João Paulo Freitas










